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Expresso

Ele foi vários homens e nós acreditámos em cada um deles

Em Kinshasa, naquele gueto para brancos em que vivíamos, o Natal era farto em surpresas para mim e para o meu primo, que nascemos no mês em que deus nosso senhor jesus cristo nasceu, significando isto prendinhas no sapatinho de 24 para 25 de dezembro, mas também a 7 (para mim) e a 27 (para ele) de dezembro.

Eram dois dias felizes com poucos dias de distância entre ambos em que se rasgavam embrulhos à pressa (eu) ou cirurgicamente (ele) e se recebiam os He-Man, as pistolas de fulminantes, os Legos e os Playmobil, os carrinhos miniatura da Matchbox - e um curioso engenho vermelho parecido com um megafone que disparava bolas de pingue-pongue a velocidade suficiente para provocar hematomas.

Mas o Natal de Kinshasa tinha outra particularidade. Além da óbvia vantagem de ser celebrado com calor e ao sol e de t-shirt e de calções, uma bênção daquelas latitudes, o Natal de Kinshasa compreendia um Pai Natal em cima de um atrelado de um trator carregado de presentes a chamar pelas crianças, uma a uma, para lhes entregar o respetivo embrulho. Cortesia da SEAZA, a empresa que empregava o meu pai, o Natal de dois dos Candeias não era então em duplicado, mas em triplicado.

Há VHS desse tempo lá em casa: eu, a minha irmã, os meus quatro primos e os nossos amigos italianos, franceses e belgas, a comparar brinquedos, a brincar com os brinquedos, a partilhar os brinquedos. E a brincar.

Era, acima de tudo, fixe, palavra que eu não usava então. Nem essa palavra nem palavrões, porque não falava muito e tinha um medo petrificante da exposição pública. Que me recorde, só por uma vez fiz parte do teatrinho do Colégio, aconteceu por ocasião de um Natal, e julgo ter aceitado por duas razões: não tinha de dizer nada e à minha frente estaria a miúda mais gira da turma. Eu era o José, ela a Maria, havia um bebé real a fazer de menino Jesus, os carismáticos pastores (um deles, o meu primo) - só tive de estar calado e não rir.

Havia putos com jeito para dizer textos e outros até para representar; eu só queria enterrar a cabeça nos bancos de madeira corrida e esperar que a aula acabasse, esperançado que os testes escritos resolvessem a minha incapacidade para socializar.

Ser ator, foi assim que sempre pensei, é uma aflição.

E é por isso que o cinema me fascina, ou melhor, por isso é que os grandes atores de cinema me fascinam e nenhum deles é tão grande como Daniel Day-Lewis.

Quando ele mandou dizer através da sua porta-voz que ia deixar de representar, refiz mentalmente a carreira dele através destes filmes: “My Left Foot”, “In The Name Of The Father”, “The Boxer”, “Gangs Of New York”, “There Will Be Blood” ou “Lincoln”. Ao contrário de muitos bons atores que a dada altura parecem estar a fazer spin off das suas próprias representações, elas próprias já caricaturais - Al Pacino ou Jack Nicholson fazem o que nós esperamos que eles venham a fazer, ou seja, berros e ironias -, Daniel Day Lewis foi sempre aquilo que os seus papéis pediam dele. Um tipo genial preso num corpo malformado. Um pugilista. Um talhante que usa porcos para conhecer a anatomia humana e assim poder desferir golpes mortais. Um tipo avarento. E o presidente mais emblemático da história dos EUA.

Nós não vemos Daniel Day Lewis, vemos a personagem.

Por outro lado, rendo-me a Daniel Day-Lewis porque ele é só o ator principal de um dos melhores filmes alguma vez feitos, um que não expus na lista anterior, porque é, digamos assim, naif no esquema do cinema de autor.

No “The Last Of The Mohicans”, Daniel é Nathaniel Poe, um branco criado por índios que lhe chamam “Hawkeye” por ter uma pontaria admirável e mortífera, capaz de acertar num alvo em movimento a distâncias consideráveis. Resumindo, Nathaniel amiga-se dos ingleses durante a Revolução por amor a Cora Munro e o filme é um jogo do gato e do rato entre os ingleses e ela e ele, filho adoptivo e irmão de moicanos, e os franceses e os Huron de Magua, um vilão que se vinga colecionando escalpes e comendo corações humanos.

As paisagens, a tensão e a histórica banda sonora de “The Last Of The Mohicans” atingem o clímax na perseguição dos índios ‘bons’ aos índios ‘maus’ e numa machadada fatal do velho guerreiro a Magua. São nove minutos absolutamente incríveis realizados por Michael Mann, sem diálogos, com sons de carne a ser cortada e de balas disparadas, um momento épico que se eterniza e se prolonga no bailado e na coordenação motora dos atores.

Porque Daniel Day-Lewis é capaz de dizer muito sem dizer nada. Ele foi vários homens e nós acreditámos em cada um deles.