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Expresso

Sem eles, as tardes tendem a ser um bocadinho menos divertidas e as noites bem menos agitadas

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À partida, todos os grupos de amigos incluem o macho alfa e o humorista, o que manda nos outros e o que manda piadas sobre os outros; e os outros passarinham entre a vontade do primeiro e a graçola do segundo.

No meu grupo da Faculdade, a coabitação não é assim tão linear. Toda a gente manda, ou acha que manda, e também dá opiniões e assume posições de força sobre isto e sobre aquilo, e diz coisas e muitas coisas diferentes sobre muitas diferentes coisas – e isso quer dizer absolutamente nada. Podemos armar-nos em marialvas e recordar proezas, como aquela vez em que aquele fez-não-sei-o-quê, “lembras-te?”. E podemos beber copos e comer bifanas e pregos e entremeadas e sardinhas e enchidos, e outros petiscos a granel. E depois, enquanto digerimos, já noite dentro, pesados, letárgicos e alapados na cadeira de plástico de um quintal no centro de Lisboa, até podemos combinar o próximo encontro, “tem de ser, pá, isto não pode continuar assim”, enquanto continuamos a achar que controlamos o dia e a hora e o lugar do jantar, cuja probabilidade de acontecer depende mais da vontade delas do que da nossa.

(Um parêntesis para as respetivas que estejam a ler isto: faz parte da vida e nós gostamos que assim seja)

Dito isto, e com o poder nas mãos de quem-bem-nós-sabemos, há um elemento comic relief sem o qual não passamos. Tem um nome, chama-se Bruno, e é o tipo mais bem-humorado que todos nós conhecemos, que faz da piada um exercício sem esforço, leve e, sobretudo, rápido. Quando ele não está, as tardes tendem a ser um bocadinho menos divertidas e as noites bem menos agitadas. É que, além da agilidade mental, o Bruno também tem lata, a lata de pedir o que seja, seja a quem for.

No tempo em que andávamos a bater nas booths dos DJ, era ele que tinha o trabalho de convencer o homem a pôr os U2 (é um vício do Bruno), mas também os Arcade Fire. E, então, não havia noitada sem a “Rebellion (Lies)” a tocar, e um punhado de tontos a pular e a cantar e a dançar, abraçados ao som do Win Butler. Ainda hoje, quando aqueles acordes de piano arrancam, o efeito é o mesmo.

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Os Arcade Fire são uma das bandas da malta, talvez a banda da malta, e vimo-los juntos mais do que uma vez. E ouvimos os seus álbuns, repetidamente, e discutimos a profundidade dos temas e de como aquilo nos dizia respeito: a morte (Funeral), a religião (Neon Bible) e os subúrbios (Suburbs).

Para mim, os Arcade Fire tornaram-se a grande esperança da música, não apenas pelo que tocavam mas também como o tocavam. O triunfalismo da orquestração, o frenesim de ter 8, 10 ou 12 elementos em palco aparentemente desligados uns dos outros, as vozes, as letras, os “sonhos são as únicas coisas que vos salvam”, e o formato épico que não tem mal nenhum quando é feito com bom gosto e honestidade. E eles faziam-no. E se David Bowie gostava deles e Bruce Springsteen gosta deles, porque não iria eu gostar deles?

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Quando saiu o Funeral pensei que dificilmente se conseguiria dar sequência àquilo; e então veio o Neon Bible e o Suburbs, e assim contei três álbuns incríveis sobre a solidão, o medo, a vida depois da vida, a adolescência. E, depois, acrescentaram o Reflektor, mais dançável, über produzido por James Murphy, e eu pensei, “ok, é arriscado, mas ainda é Arcade”, no sentido em que os Arcade soavam agora a Bruce, Bowie, Talking Heads e Ecco & The Bunnymen misturados com LCD SoundSystem e ritmos do Caribe.

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Tudo junto e estranhamente tudo bom.

E foi então que começaram a soar a ABBA.

Desafio-vos a ouvir a “Everything Now” e a não pensar em Agnetha Fältskog, Björn Fältskog, Benny Andersson e Anni-Frid Lyngstad, lantejoulas, música disco e disco balls, franjas, minissaias, globos, roupas brilhantes. Sei do que falo, os meus pais tinham lá em casa o vinil ABBA Gold, e se nada me move contra os ABBA, muito me move contra o facto de os Arcade Fire se parecerem com os ABBA. A batida, o piano, a progressão melódica, o arpejo, a guitarra acústica, o baixo, enfim, aquela linha de baixo, e temos a “Dancing Queen”.

À primeira, a canção é pirosa, irritantemente orelhuda, palavras que nunca associaria aos Arcade Fire. À segunda, a canção é pop e bem-disposta. À terceira, batemos o pé debaixo da secretária e abanamos a cabeça. E, à quarta, ouvimos que Win Butler está a cantar sobre o consumismo, a urgência e a sofreguidão de querer ter tudo ao mesmo tempo e a normalização da norma. Só que aqui já estamos no terreno perigoso da condescendência, como se os Arcade fossem os Coldplay e não os Arcade.

Espero que esta seja a piorzinha das canções do novo álbum e que a decisão de a pôr a rodar agora tenha mais que ver com o sol e os passarinhos e o verão e o bom tempo do que com a impossibilidade de escolher uma melhor. Porque não queria estar a pedir ao Bruno para pôr a mesma música naquelas mesmas noites.

Porque, sem eles, as tardes também tendem a ser um bocadinho menos divertidas e as noites bem menos agitadas.