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Expresso

Há lugares onde a ética não existe e a consciência só existe nos fracos

Era tarde e não havia nada para fazer em Kayenta, que apenas existe porque a 40 quilómetros há o Monument Valley, o parque natural onde há elefantes e três irmãs de pedra, onde os pés pisam terra vermelha e John Ford filmou os seus westerns: o John Ford Point. Foi como estar num filme.

Depois do tour, o plano era simples e era este: uma visita à drugstore local para comprar amendoins, sumo, iogurte, fruta, água e nenhum álcool, porque Kayenta fica no território dos Navajo e lá impera a lei seca; em seguida, o check in, mochila no chão, televisão ligada, aterrar.

Naquele ano, e especificamente naquele mês, os americanos iam decidir-se entre Barack Obama e Mitt Romney, e a CNN, Fox, NBC, CBS estavam a dar tudo na cobertura às presidenciais, um corrupio de comentários e de comentadores, diretos, pivots, reportagens, assessores, recados, comícios, vox pop. Lá na América eles sentem aquilo, aliás, levam aquilo a sério, pensei eu, e põem stickers em carros, autocarros, carrinhas e espetam cartazes no jardim verde à frente das casas brancas, com as sebes brancas e caixas de correio cinzentas. “God Bless America”, “U.S.A.”, “This is a free country” e por aí fora.

Tal como nos filmes.

Mas também descobri os canais locais e a forma como os políticos faziam a política, ou melhor, a politiquice. Às tantas, vi estes momentos de campanha: o vídeo de um candidato republicano a acusar o rival democrata de assediar mulheres no trabalho (o homem era sheriff), de mão dada com a sua mulher que dizia “vão votar num agressor sexual ou no meu marido”; e no vídeo seguinte apareceu o acusado, também de mão dada com a mulher dele, a dizer que era tudo mentira, uma aldrabice pegada, que o sheriff era um intrujão, que ele tinha forma de o provar e iria prová-lo se votassem nele.

Ambos tinham os respetivos números de telefone abaixo da cintura enquanto falavam para a câmara e a qualidade da imagem era tão má, mas tão má, que aquilo não podia ser real.

Como se fosse um filme.

Que não era, pois, a não ser que houvesse muitos filmes assim, porque foram vários os exemplos inacreditáveis que assisti na TV enquanto lá estive a cruzar a América. E isso leva-me a isto:

– Sabem o que separa os políticos do resto das espécies? Um político é aquele que afogaria uma ninhada de gatinhos por 10 minutos de prime time.

Senhoras e senhores, este é Frank Underwood, o presidente do Estados Unidos da América no universo House Of Cards, no 9.º episódio da 4ª temporada que devorei, juntamente com a 3ª, numa semana e meia; ainda não passei os olhos pela 5ª, pelo que não há spoilers neste texto.

Não sei se a House Of Cards é a melhor série de todos os tempos, como já foi escrito algures, mas sei que é a melhor série que vi no meu tempo, talvez só ultrapassada pelos Sopranos, talvez porque tenha tido sempre queda para histórias de criminosos com problemas existenciais, unidos por lealdades transitórias, todos com uma moral discutível e pavio curto.

Pensando bem, House Of Cards não está assim tão distante dos Sopranos.

Há um tipo que veio do nada, um white trash como o próprio se descreve, que subiu na vida através de um bom casamento com uma bela mulher. Ele e ela juntaram-se e formaram uma parceria aparentemente inquebrável, inoxidável, resistente a traições matrimoniais que, descobriremos entretanto, são consentidas e admitidas no contexto do grande plano: tomar a Casa Branca de assalto, coisa que a determinada altura conseguem.

Frank e Claire, Kevin Spacey e Robin Wright, são ao mesmo tempo absolutamente cúmplices e extraordinariamente distantes, mas a relação funciona desde que o objetivo principal se mantenha intacto.

Pelo caminho, Frank mata e persegue, ou manda matar e perseguir, conforme lhe convém; e mente descaradamente, engana, manipula, faz emboscadas e dispõe armadilhas que destroem carreiras e amassam vidas.

Parece respeitar e ajudar duas pessoas apenas, Claire e o leal Doug, e o resto do mundo está lá apenas para o servir ou para ele se servir; o conceito de ética não existe e a consciência só existe nos fracos de espírito.

É como ele diz no 1.º episódio da 2ª temporada num dos monólogos em que nos olha nos olhos:

– Todos os gatinhos crescem e tornam-se gatos. Parecem inofensivos no início. Pequenos, calados, debruçam-se sobre a latinha do leite. Mas quando as garras crescem o suficiente, eles fazem sangue. Por vezes, fazem sangrar a mão que os alimenta. Para aqueles que querem chegar ao topo da cadeia alimentar, não pode haver misericórdia. Só há uma regra: caçar ou ser caçado.

Maquiavel.