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Expresso

Estamos a chegar ao fim do tempo da criatividade e da imaginação e do sonho

Há poucas coisas que mexam tanto com a imaginação de um puto como o voo, o voar, o avião lá em cima e eu a ver os rabiscos perfeitos que deixa no céu enquanto fura as nuvens feitas de algodão e eu pergunto a que velocidade viaja, se cá de baixo me parece que vai devagar, e o pai ou a mãe responde que não é bem assim, bem pelo contrário, que o avião vai depressa, são as aparências, e eu devia saber disso porque viajo dentro de um várias vezes por ano.

E até pode ser que seja verdade e que essas viagens tenham acontecido durante a infância, mas isso não invalida o fascínio da improbabilidade de haver realmente homens, mulheres e crianças a voar dentro de um cilindro que tem asas como os pássaros.

À falta do teletransporte e do beam me up Scotty do Star Trek, e da capa do Super-Homem, o avião foi o mais perto que estive de realizar um sonho impossível - e os pilotos foram, em tempos, os meus heróis de carne e osso. E é por isso que adorava os jogos arcade da tasca ou da Feira Popular que tivessem aviões, sobretudo caças, F-15, F-16, fosse o que fosse.

E é obviamente por isso que o Top Gun aparece nesta história. E não aparece a despropósito.

Li no outro dia que Tom Cruise e Jerry Bruckheimer, o produtor/realizador dos blockbusters manhosos-de-pastilha-elástica, vão começar a gravar a sequela do Top Gun 2 e isso não pode acontecer. Porque há todo um imaginário que se vai perder: o Goose já morreu quando o avião se despenhou no mar; é ridículo pôr um jogo de vólei de praia regado a testosterona em pleno século XXI; os miúdos de hoje já não acreditam no voo invertido e no “passarinho” ao piloto do MIG do russo porque o Google está cheio de informação; o chavão need for speed já só resulta em desenhos animados; não há ninguém que nos consiga tirar o breath como os Berlin; a Kelly McGillis é insubstituível, não há outro Ice Man como Val Kilmer nem outro Tom Cruise como o Tom Cruise dos anos 80.

Não digo que as sequelas sejam integralmente má ideia, porque até há segundos ou terceiros filmes que superam os primeiros, como Die Hard II, Back To The Future II, The Lord of The Rings: The Return of The King, Empire Strikes Back, Dark Knight, mas por cada Godfather II aparecem duas ou três bizarrias que comprometem um legado - e ferem a nossa memória.

Sobretudo quando entre o original e o que se segue há um tempo que passa, dez, quinze, vinte anos, período durante o qual se perde a magia. E é a modos que assim que me encontro, receoso do que poderá estar no Alien:Covenant e do que aí virá quando estrear, por exemplo, o novo Blade Runner. Seja o que for, e como for, como há tantas histórias revisitadas, redimensionadas e atualizadas (a interminável saga Fast & Furious), ficarei com a sensação de estar a rever sempre as mesmas coisas, feitas de forma diferente, pelo que estaremos perto do fim do tempo da criatividade e da imaginação no cinema para massas.