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Expresso

Há um padrão nas coisas que acontecem só aos outros – alguém se esquece de ler os sinais

De cada vez que isto acontece, lembro-me dele.

O Pedro, que não é Pedro mas a quem chamarei Pedro já vão perceber porquê, o Pedro sentava-se lá atrás, na fila do malandro. Ele era alto e magro, tinha as pernas compridas e os jeans ficavam-lhe sempre curtos e as meias à mostra. Esticava-se por baixo da mesa, encostava-se à cadeira e afundava-se enquanto os professores escreviam no quadro e ele nada apontava no caderno. Nem no livro.

O Pedro não precisava porque era brilhante, tinha notas excecionais e estes eram os únicos esforços que eu o via fazer: entrar na aula antes do segundo toque, responder à chamada de presenças, e ficar calado.

O que, convenhamos, não é por aí além; todos nós conhecemos alguém com boa memória visual ou auditiva, capaz de decorar o que lê ou ouve à primeira.

O Pedro é diferente.

A maior parte das vezes, ele estava ali, mas não estava todo ali, estaria num lugar qualquer, alheado, e no entanto era barra em Português, Geografia, História e sobretudo Filosofia. E sempre que a setôra lhe perguntava alguma coisa, ele lá voltava a nós, endireitava as costas e respondia com aquela voz pausada e arrastada. Acertava, elaborava e justificava.

E sorria.

O Pedro era o nosso Will Hunting antes do Good Will Hunting, porque era dotado e porque também tinha coisas a esconder. Só que no caso do Pedro não era uma casa pobre e rarefeita, e uma família destruída, mas a depressão. E a droga.

Durante o secundário, ele equilibrou a vida entre os charros e a alienação e as más companhias daquele subúrbio de Lisboa. Só que depois, por uma razão ou por outra, sendo a mais provável o suicídio de um amigo, os limites deixaram de existir e ele mergulhou no poço.

O Pedro que era bom aluno e também jogava bem à bola passou a entrar nas conversas como o gajo que alguém tinha visto a arrumar carros num parque de estacionamento de Odivelas. E a roubar. E a ser internado.

Porque há um padrão nas coisas que só acontecem aos outros - alguém se esquece de ler os sinais de quem está próximo de nós.

Hoje de manhã acordei e li que Chris Cornell tinha morrido. Pensei que era outro que se ia porque o corpo não tinha aguentado os abusos e os consumos, uma estrela rock cujo coração decide morrer antes de tempo.

Depois, durante o dia, revisitei os Soundgarden e a Black Hole Sun e a Spoonman, os Temple Of The Dog, os Audioslave; fui transportado no tempo para a escola secundária e para o Grunge que varreu os metaleiros da laca e da cara pintada; e para a MTV e para o Top Mais e para o meu primeiro rádio. Eu não adorava os Soundgarden, gostava dos Soundgarden, porque sempre os achei mais limitados do que os Nirvana e do que os Pearl Jam.

Por outro lado, era fã de Chris Cornell, ou melhor, da voz de Chris Cornell, que era incrível, versátil, ia do falsete à rouquidão num fósforo e pulava oitavas com facilidade. Ele era capaz de cantar tudo e emprestava a cada uma das suas interpretações a alma, o carisma e a melancolia dos seus olhos.

E da melancolia à tristeza vai um passo e quando a notícia que a morte de Cornell estava ser investigada como um suicídio, recordei-me do que lera antes sobre o homem. Que era solitário. Que era deprimido. Que sofria de ansiedade e tinha ataques de pânico. E que fora alcoólico durante uns tempos e estivera sóbrio noutros, ainda que os estados se misturassem e os limites não fossem claros.

Talvez tenha perdido o equilíbrio e talvez por isso tenha perdido a vida.