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Expresso

Às vezes, fingir que se é outra pessoa durante uns instantes é melhor do que sermos nós próprios

A primeira coisa que fiz com o meu primeiro ordenado do meu primeiro trabalho foi comprar a minha segunda guitarra. Gastei metade do que estava no generoso recibo verde de prestador de serviços numa Gibson bonita, castanha, semiacústica, e mais tarde pus-lhe um autocolante do Let It Be para fazer figura. Também paguei um saco para quando quisesse transportá-la para os meus espetáculos com a minha banda de garagem imaginária, que só existia na minha cabeça e de um, dois amigos, um deles o Fred, outro o Ico, que hoje é realizador de filmes em Moçambique

Ainda me lembro de uma jam session noturna num descampado com vista sobre a Portela de Sacavém. Eu, o Fred, o Ico, duas violas e uma harmónica de blues, umas garrafas de tinto, Rock & Roll, Creedence Clearwater Revival, Nirvana, Pink Floyd, e acho que também Pearl Jam, Arcade Fire e Bruce Springsteen. Mais tarde, o Fred trouxe o Raminhos e passámos a ensaiar num estúdio também com o Vasco, que era artista na elétrica.

À falta de confiança, criatividade e vontade para trabalhar letras e compor, a malta fazia covers das canções que gostava – e conseguia tocar. Às vezes, fingir que se é outra pessoa durante uns instantes é melhor do que sermos nós próprios, e eu fiz sempre isso, tentando aproximar-me da voz do Eddie Vedder, como quase toda a gente da minha geração (é o que me dizem), ou da do Boss, porque é o Boss.

E é por isso que respeito as bandas de tributo e os artistas que cantam músicas de outros, mesmo que apenas as imitem, sem lhes darem roupagens novas. A cover, digo eu, é uma instituição e posso citar duas que eu julguei serem originais quando as ouvi pela primeira vez: a “Twist and Shout” dos Isley Brothers pelos The Beatles, e a “I Fought The Law” dos Bobby Fuller Four pelos The Clash. Depois, temos aquelas versões que melhoram o que já foi feito, como a “Hurt” dos Nine Inch Nails por Johnny Cash, a “Hallelujah” de Cohen por Jeff Buckley e por Rufus Wainwright, a “Chelsea Hotel Nº2” de Cohen por Rufus Wainwright – ou a “Baby One More Time” de Britney Spears pelos Travis.

Esta mexe com as convicções de qualquer tipo que se diz avesso ao pop-pastilha elástica. Acontece que, depois dos Travis, passei a trautear Britney Spears mais vezes do que as que quero admitir e agora quero justificar-me: está tudo nos arranjos que são maus e trauliteiros, porque a melodia, se ouvirmos bem Fran Healy, não é má de todo – as palavras são outros quinhentos, mas convém lembrar que Bono Vox também escreveu a “Sweetest Thing”.

E daqui pulo para um álbum que me faz confusão: o “1989” de Ryan Adams, que decidiu pegar no “1989” de Taylor Swift e fez uma versão integral do mesmo. É de 2015, são 13 canções e 54 minutos e 18 segundos, fui eu ver, com Adams a cantar Swift. E é estranhamente bom logo à primeira, talvez porque Ryan Adams é uma figura de culto, o cantautor permanentemente deprimido, que canta a nostalgia, o fim das relações e os lugares onde viveu – a sua voz e o seu lado acústico conferem alguma densidade e complexidade à estrutura musical de Swift.

Percebe-se que Adams levou o trabalho de Swift a sério e não editou o álbum por gozo como Father John Misty –sendo o príncipe da ironia que é – acabou por fazer com a sua versão de “Blank Space”.

Ryan Adams trouxe-lhe alma, insegurança, carisma e simplicidade, coisa que Taylor Swift agradeceu porque conseguiu pôr o pé em território indie e isso deu-lhe credibilidade. Não é todos os dias que isso acontece.

O problema é que, ouvindo-o uma segunda e terceira vezes, quando o álbum começa a assentar dentro de nós, compreende-se a fragilidade da prosa, perde-se o encanto e deixa-se de acreditar que Taylor Swift poderia estar, afinal, a cantar sobre dilemas existenciais, a vida e a morte e a religião e a poesia, e não sobre os seus “haters” que “gonna hate”.

Ao contrário de mim, e muitos como eu, Ryan Adams não precisa de ser outro, basta-lhe ser ele próprio.