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Expresso

Kicking, squealing Gucci little piggy

Há muitas coisas que fiz das quais me arrependo e algumas delas continuam aqui dentro, assombram-me mesmo que as tenha feito no tempo em que não é suposto sentir-se arrependimento. Este é o lado católico herdado da minha mãe, a penitência, o deus-que-castiga, a moral imposta na catequese da qual fugi às escondidas, ainda a tempo de não me enfiarem no crisma – mas demasiado tarde para sacudir de vez a culpa.

Por outro lado, há coisas das quais me arrependo não ter feito e algumas delas ainda estão cá fora, e eu ando à volta delas achando que estou a tempo de as fazer. E este é o lado protestante herdado do meu pai, aquela autoexigência e a autocrítica permanentes, ter as melhores notas na escola e no conservatório, não desiludir a figura paterna, o trabalho primeiro e o resto logo se vê – e não há modos disto desaparecer. Atenua, porque a idade também é lidar melhor com o que somos, mas não desaparece.

Provavelmente, é isto que nos torna a todos mais ansiosos do que contemplativos, e tenho a certeza que senti isto quando ouvi o OK Computer pela primeira vez.

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O Lima não me vai levar a mal que o ponha nesta história, até porque é a ele que lhe devo esta memória. Andava eu com as minhas paranoias dos anos 60 e 70, Beatles, Led Zeppelin e Pink Floyd, e ele a dizer-me que sim, que era tudo porreiro, mas que eu devia ouvir algo fresco.

– Estou-te a dizer, o OK Computer é do caraças. Um dos melhores álbuns de sempre.

– Sim, sim, sim.

Eu também era um bocadinho obtuso.

Estávamos em 1998, um ano depois de o álbum ter saído, e eu conhecia o Pablo Honey mal e o The Bends relativamente bem, a MTV ainda passava música (e não estes reality shows regados a tequilha), e eu já vira o No Surprises. Obviamente, a canção e o videoclip maravilharam-me, mas nunca arrepiei caminho para comprar o CD.

Até que o Lima mo passou para a mão.

E as coisas mudaram.

Convém não esquecer o contexto: há 20 anos, o grunge puro vivia os seus últimos dias, a cena britpop começava a soar a réplicas de outras réplicas de outras réplicas, e a eletro-pop-disco nunca me caíra no goto.

Quando pus o álbum a rodar no boombox preto da Sony e fui buscar os phones e me deitei na cama e o ouvi noite dentro, percebi que ainda era possível escrever e musicar com camadas sobre outras camadas sem perder o objetivo maior – fazer com que algo tão complexo soe tão bem.

Eu também mudei.

O OK Computer é uma obra-prima, a história da luta do homem contra a máquina, tema recorrente no Rock & Roll, e da alienação nas grandes cidades dominadas pela tecnologia e pelo trabalho. Cobain já escrevera sobre a depressão nos subúrbios, Thom Yorke trouxe-a para o centro. Na voz dele há pânico e ansiedade, e nas letras leem-se distopias e desilusões. A Paranoid Android, com as mudanças de ritmo e o coro e o vídeo e aquela frase (“Kicking, squealing Gucci little piggy”), a Karma Police e a No Suprises ficarão para a história como algumas das melhores composições alguma vez feitas. E são sobre ansiedade e culpa e não há mal nenhum nisso.