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Expresso

Se eu pudesse dividir o mundo em duas categorias, era assim que eu faria

Se eu pudesse dividir o mundo em duas categorias, era assim que eu faria: os que querem ser índios e os que gostam de ser cowboys. Não é coisa de somenos e não digo isto do pé para a mão, bem pelo contrário, até porque me demorei uns longos cinco minutos a pensar nos amigos e nos primos, e nas brincadeiras que tínhamos quando éramos putos - e naquilo que nos viemos a tornar. Acho que foi ali, no jardim ou no recreio ou no sofá, mascarados ou com os nossos brinquedos a inventar histórias, que começámos a definir personalidades e a distanciar os feitios.

Havia os que preferiam estar ao lado das regras, da intransigência e da equipa vencedora, que adoravam ver os melhores e os mais fortes a triunfar sobre os outros, porque tinham o poder do lado deles - esses eram os cowboys. E depois havia aqueles com queda para as personagens cinzentas, que faziam esta ou aquela pequena batota inofensiva para derrotarem o establishment do quintal - e esses eram os índios. E eu era um deles.

Nada me dava mais gozo do que ser o gajo que se escondia e escondia os fulminantes, pulava carcaças dos autocarros, rastejava dentro dos túneis de cimento onde havia aranhas e, dizia o meu pai, cobras que nunca vi. Eu e o meu primo, sujos de alcatrão, pó e poeira, com os raspanetes à espera em casa e a cabeça num mundo paralelo - o mundo do faz-de-conta em que éramos os bons-malandros.

Desde que me lembro que sou fã de filmes de golpes e de golpadas. Há um lado romântico no bom-ladrão-bom que assalta um banco, uma seguradora, uma joalharia, e consegue escapar num último suspiro, deixando o dono furioso, estarrecido, entregue a si próprio ou à polícia - às vezes, o tipo a quem roubam a fortuna tem um passado dúbio e poucos escrúpulos, está ali résvés Campo de Ourique entre o mau e o muito mau.

Trago comigo uma lista de imperdíveis: “The Usual Suspects” com Kevin Spacey, o “The Italian Job” original com Michael Caine, a série “Ocean” com George Clooney & friends , “The Getaway” com o carismático Steve McQueen, “The Sting” com os geniais Redford e Newman, “The Town” com Affleck, “Inside Man” com Denzel Washington e Clive Owen; e até incluo o “Point Break” com os canastrões Patrick Swayze e Keanu Reeves, espécie de filme de culto para a malta new age. Em todos estes, é fácil escolher um dos lados, porque os argumentos foram feitos assim: os bandidos têm charme, os (alegadamente) bonzinhos são como amebas.

E, depois, há o “Heat”.

Ainda hoje quando o revejo pela enésima vez - e fi-lo há tempos - não me consigo decidir se gostaria de ver Neil McCauley safar-se ou ser apanhado, e morto, como foi pelo Lieutenant Vincent Hanna. Michael Mann conseguiu o improvável, que foi apresentar os bons e os maus, misturá-los, e dar-nos a escolher entre uns e outros. Não é fácil. Hanna, é um polícia quasi alcoólico, viciado no trabalho, com temperamento difícil e espalhafatoso, do jeito que só Al Pacino consegue ser.

E McCauley, o líder de um grupo de assaltantes profissionais, é frio, contido, e segue uma máxima curiosa que atravessa o filme inteiro: “Nunca te agarres a nada que não estejas disposto a deixar em trinta segundos se sentires o perigo ao virar da esquina”.

Hanna é mau marido, McCauley não quer mulheres e tenta consertar a relação entre Chris Shiherlis (Val Kilmer) e Charlene Shiherlis (Ashley Judd). Os dois estão em rota de colisão, é inevitável que choquem, e quando o fazem, acontece cinema:

Esta é uma das cenas mais memoráveis dos blockbusters e começa com um convite para um café. Discutem-se as chatices da rotina do dia-a-dia, os altos e baixos das relações, o que cada um faz na vida e porquê, e acaba-se com uma ameaça de parte a parte.

O texto e a interpretação de Pacino, o cowboy, e De Niro, o índio, são intensos, como se a cada momento um deles fosse explodir. E, não se enganem, o “Heat” tem explosões e tiros, momentos vertiginosos em que a baixa da cidade se transforma num teatro de guerra, e esta é a beleza do filme, que respira e acelera nos tempos certos. E, quem sabe, este é o segredo das obras de Michael Mann, um dos poucos realizadores que consegue fazer bons filmes para massas. E o único que me deixa banzado e me faz repensar as primeiras quatro linhas deste texto.