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Expresso

Os homens sobreviveram a contar histórias uns aos outros

Às vezes, conseguimos ver as palavras à nossa frente mas não sabemos como agarrá-las

Perguntei-lhe se estava tudo bem, como tinha corrido a Páscoa.

- Ela está a desaprender a andar.

Disse-me que eu já sabia como eram as coisas, que a doença é assim mesmo, olha, é a vida, não se pode fazer nada a não ser esperar. A demência apanhou-a aos bocados e ela apercebeu-se disso.

A cabeça já não anda a funcionar como dantes, era o que nós ouvíamos dela.

Começou por esquecer-se dos lugares aonde tinha de ir e depois dos lugares onde estava; hoje, não sabe muitas vezes em que tempo está e troca os nossos nomes e as nossas caras e substitui-os por outros, e é capaz de estar a dobrar e a desdobrar o mesmo cobertor durante horas. Porque acha que está desarrumado.

Deve ser assim porque toda a vida dela foi passada a arrumar as trouxas dos outros. E a lavá-las. E a passá-las a ferro. E a levar o lixo cá fora num contentor verde que arrastava da porta da entrada até ao passeio com um sorriso na cara.

Fê-lo todos os dias, menos aos domingos em que ia lá a casa e nos trazia os Twix ou nos cozinhava arroz de tomate com bifes de peru panados. Ia de Benfica e regressava a Benfica sozinha, de autocarro e a pé, até deixar de o conseguir fazer.

Um dia, vinha da missa, trocou os passos, partiu a perna e eu vi-a da nossa janela do quinto andar a estatelar-se no alcatrão. Foi o início para ela e uma repetição para nós, que já tínhamos visto isto acontecer com a outra avó.

É o mesmo processo degenerativo que leva uma mulher inteligente, esperta, ativa e independente - ambas criaram os filhos sem alguém por perto - a perder-se perante os nossos olhos. Quando está connosco, esforçamo-nos para manter uma aparentemente normalidade, uma rotina qualquer que nos agarre, mas a impotência e a frustração e a culpa e a tristeza tornam-se comuns enquanto se assiste ao progressivo declínio de alguém que tem o mesmo sangue que nós.

E, por partilharmos o código genético, há outro sentimento mais egoísta que nos corre nas veias: o medo de ficarmos iguais quando a hora chegar.

“But the thing, the thing is that, John, the thing is that the type of Alzheimer’s I have is very rare. It’s passed on genetically.” Quando Alice Howland revela à família o que tem, ninguém sabe o que dizer. Ali está ela, uma linguista, orgulhosa do seu discurso articulado, inteligência, presença, que entretanto se esqueceu da palavra “léxico” ou de como se escreve “outubro”.

Alice (Julianne Moore) tem 50 anos e não é suposto sofrer-se de Alzheimer com esta idade. “Sometimes I can see the words hanging in front of me and I can’t reach them”, dirá à filha Lydia (Kristen Stewart) quando os Howland vão tentando perceber como se consegue viver assim, com dias bons e dias muito maus.

O “Still Alice” (2014) é um retrato duro, cru e tocante de como o Alzheimer ou a demência alteram as dinâmicas familiares, a começar pela pessoa que adoece e que sabe pelo que está a passar - e que não há forma daquilo passar. Inventam-se truques, ganham-se vícios, jogam-se jogos de palavras ao telemóvel, obcecadamente, para tentar perceber se há melhorias, se há algo que se possa fazer para reverter a erosão. Não há.

Resta-nos gostar.