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Expresso

O tipo do chapéu que tem o futuro na ponta da caneta

d.r.

Tinha o bloco de desenho Cavalinho A4 e dois lápis de grafite afiados e o afia cinza e a borracha Pelikan branca. Estava sentado no bom lugar na sala, o melhor lugar, o lugar perfeito para os tímidos, com uma vista ampla mas ao mesmo tempo escondido dos colegas e do professor. Era tudo bom, tudo do bom e de certeza que iria correr tudo bem - e pela descrição entusiasmada já perceberam que não foi bem assim.

A tarefa não era nada por aí além: desenhar o que se via da janela, ou seja, uma paisagem de um monte de ervas e com ervas, minúsculos malmequeres, passarada no céu, o sol. Não me lembro exatamente das palavras do setôr, mas não terão andado muito longe destas: “Não vás por aí”.

Devia ter previsto aquilo, porque as minhas experiências com os trabalhos manuais eram as mesmas desde a escola primária. Cortar papel, riscar da lista; pintar, riscar da lista; escrever com tinta de aparo, riscar da lista; esquadros, compassos, círculos, circunferências, retratos, bordados, barro, argila, enfim, fosse o que fosse que envolvesse destreza era uma nulidade. E mais tarde, descobri que havia tesouras e outros equipamentos para canhotos, e arranjei a melhor desculpa - culpei o material.

Não resultou.

Foi um processo longo e embaraçoso até ficar em paz com as minhas inaptidões, sobretudo a minha incapacidade para o desenho. São coisas que ficam cá dentro, resolvidas com frustração e resignação, mas que saltam cá para fora quando se vê por exemplo isto:

O tipo de chapéu é Tinker Hatfield e este é o excerto de um dos episódios da série “Abstract: The Art Of Design”, da Netflix. Tinker, cujo nome o faz ainda mais fixe, é surfista, skater, condutor de uma pão-de-forma da Volkswagen, pai de duas raparigas, colecionador de sapatilhas e desenhador

d.r.

A história de Tinker é incomum: um ex-saltador com vara que se lesiona e passa a desenhar, primeiro para descontrair e depois para ganhar dinheiro, e se torna designer na Nike, ou melhor, o designer da Nike, após um processo de seleção feito dentro de uma sala fechada. Tinker diz que sempre pensou ao contrário dos outros e que foi isso que o levou longe: não ter medo de arriscar, de tentar ver o futuro, e ele viu o futuro porque são dele aquelas sapatilhas que se autoajustam do Marty McFly do “Back To The Future II”. Aliás, essas mesmas sapatilhas estão agora a ser comercializadas porque os engenheiros lá conseguiram concretizar a ideia de Tinker - envolve uma pequena bateria e outros circuitos que não sei explicar.

getty

Por outras palavras, Tinker tem um pensamento disruptivo, o conceito da moda das empresas de hoje que procuram soluções para saírem do buraco em que a crise e as más gestões as puseram. Ao longo deste episódio desta série incrível, o norte-americano discorre sobre os riscos que tomou e os responsáveis da Nike sobre o risco em que estavam antes de porem Tinker à frente do projeto que lhes salvou a marca - os Air Jordan.

E este foi o ponto que mais me agarrou, porque a ele veio agarrado Michael Jordan e isso levou-me para aqueles domingos de manhã em frente à TV a assistir aos resumos da NBA. De pijama, com o leite e os cereais, devorava os resumos, ouvia o “faaantástico” do Carlos Barroca e esperava pelas 10 melhores jogadas da semana - algumas delas, ou a maior parte delas, eram dele. MJ foi o meu herói na infância, lado a lado com o Senna, e também eu tive os meus Nike de basquetebolista, pretos, quando assumi que o futebol não era para mim.

Jordan, tal como Tinker, via o futuro na forma como jogava e sabia instintivamente para onde ir, como ir, quando ir. E é na futurologia que está o segredo do futuro.