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Expresso

Tudo é mecânica, mecanismos e mecanização

Whiplash. Vamos falar sobre isto. Mas só daqui a pouco

As aulas eram ao lado da igreja do colégio de Kinshasa onde fiz a primeira comunhão. A professora tinha óculos, vestia uns vestidos rodados que lhe caíam abaixo dos joelhos e calçava uns sapatos de fivela. Também tinha um relógio de pulseira fininha e gostava que se chegasse a horas.

– Bonjour, ça va?

– Bonjour, oui ça va bien.

Sentava-me no banco, punha as mãos no teclado e abria o livro: Claire De La Lune, Frêre Jacques, Für Elise, Nuit de Paix e outras cantilenas. Ela tocava primeiro e eu procurava memorizar aquilo de ouvido depois, imitando-a por tentativa e erro; sabia o que era o dó, ré, mi, mas partituras não eram comigo. Só quando cá cheguei e passei a ter aulas no primeiro andar de um prédio, ao pé de um quiosque, e me confrontaram porque falhava consecutivamente os sustenidos nas escalas é que abri o jogo:

– Não sei ler.

E aprendi. E depois fiz-me um projeto de pianista, completei o curso do conservatório, o que quer dizer que tive oito anos de Piano, Formação Musical, um (ou terão sido dois?) de Música de Câmara, três de Coro, quatro de História da Música, dois de Acústica e de Composição. Eu e os meus colegas fizemos concertos locais, tocámos em casinos, no Palácio de Queluz, concorremos ao Jovens Músicos Portugueses e eu tentei entrar na Escola Superior.

Falhei, como se vê.

Eu gostava de dizer que falhei porque estava nervoso por ter três juízes a olhar para mim enquanto tocava numa sala gigantesca, num piano de cauda igualmente gigantesco. Ou então, porque tinha tido um dia mau, muito mau, daqueles que tivera antes; é que, às vezes, as coisas corriam muito bem, e outras vezes muito mal. Não foi só isso.

Falhei porque não estava preparado para aquilo, porque não fui perfeito ou quase perfeito, porque não estudei o que devia ter estudado e porque me fiei na inspiração e no talento que diziam que eu tinha.

Um músico é como um atleta; é tudo mecânica, mecanismos e mecanização. A ideia é praticar tanto, mas tanto, que não se esteja a pensar no trino, no arpejo, no pedal e no texto enquanto se toca. É preciso fluir, entrar numa espécie de transe consciente, mas até chegar a esse ponto passam-se horas, dias, meses fechados em quartos em frente a um teclado. Tem de ser uma obsessão quase doentia pela perfeição – eu não fui capaz de o fazer. Horowitz, Richter, Kissin ou Sokolov não brotaram espontaneamente.

Por isso, quando finalmente vi o Whiplash no outro dia, lembrei-me do Shine e recordei-me da intensidade furiosa de uma aula.

Para quem não viu, Whiplash é a história de um puto chamado Andrew que diz querer ser um dos melhores bateristas de sempre. Nas palavras dele: “Preferia morrer bêbado, falido aos 34 anos e ter pessoas a falar de mim à mesa do que viver até aos 90 anos, rico e sóbrio sem que ninguém se lembrasse de mim”.

O filme é sobre a procura de um ritmo inatingível, a competição constante com os colegas que são rivais, a relação masoquista e frágil entre o aluno frágil e o professor gélido e de braços musculados; há uma depressão, um acidente de carro e uma vingança. Pelo meio e em nome do seu ofício, Andrew sua e sangra como um pugilista, despacha a namorada, o pai e a família, arranja inimigos e percebe que não há amigos no mundo dos artistas, supostamente liberal e descontraído.

O processo a que Tiles Meller (Andrew Neiman) se submete às mãos de JK Simmons (Terrence Fletcher) é doloroso porque é isso que o professor quer.

Porque só do sofrimento pode nascer algo verdadeiramente glorioso e memorável.