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Expresso

Os homens sobreviveram a contar histórias uns aos outros

As coincidências não são apenas coincidências, mas o destino a funcionar de uma forma não linear

Sou péssimo em datas, esqueço-me de quase todos os aniversários e como não tenho Facebook e toda a minha gente o tem, acho sempre que estou a dois passos de perder um amigo. Por outro lado, sou ótimo com caras e nunca me vou esquecer da cara que o meu pai fez quando aquilo aconteceu.

Tínhamos visto o meu avô tempos antes, acamado, e eu reparara nas veias, salientes e verdes, que se queriam fazer expulsar das carnes secas dos braços, das mãos. E as feições dele, que eram as do meu pai e que dizem que também são as minhas, estavam comidas, doentes, e a voz era frágil.

O patriarca dos Candeias, inteligente, intuitivo, complexo e difícil de ler, estava a morrer, e quando se foi o meu pai chorou. Nunca o tinha visto assim e acabei por vê-lo mais vezes assim, muitas mais do que as que queria, porque morrer tornou-se ofício da família. Fizemos vigílias, carregámos caixões, subimos escadarias, ouvimos missas, memorizámos rituais, descemos escadarias, acompanhámos cortejos a pé e amparados uns nos outros, chorámos, alguns de nós desesperadamente, perguntámo-nos porquê?, enterrámos, agradecemos os pêsames e o conforto, demos os pêsames e oferecemos o conforto. E a dor e a violência continuaram iguais, apesar da repetida exposição.

Quero acreditar que é assim com quase todos e que a seguir chegam as memórias e o arrependimento. E quero acreditar que isto passa também pela cabeça de quase todos, sobretudo a culpa que, no meu caso, implicam os almoços, as festas e os jantares a que não fui ou as simples visitas que não fiz.

O cinema está cheio de momentos destes, de remorsos, contrição, desgosto, seja o que se quiser chamar-lhe. Normalmente, estas cenas são acompanhadas de uma trilha sonora subtil, se o filme for bom, ou exagerada, se for mau.

O Magnólia, de 1999, por exemplo, é brilhante e tem uma cena incrível, e improvável, porque o protagonista é Tom Cruise. O ator que aprendemos a não gostar pelas crenças que são lá dele, mostrou que nada é impossível.

Porque o tamanho da sua personagem, maior do que a vida, arrogante, de chavões agressivos (“respect the cock, tame the cunt”), um vendedor de sonhos para homens inseguros e, segundo ele, emasculados, o seu Frank TJ Mackey diminui até se extinguir, prostrado sobre o pai (Jason Robards) que se precipita para a morte.

Neste instante, Cruise entrega-se ao desempenho que lhe valeu a nomeação para o Oscar – e que não venceu.

Não é apenas por isto que este filme de Paul Thomas Anderson é um dos meus favoritos. É-o porque tem William H. Macy a sofrer por um amor não correspondido num bar, Julianne Moore a viver um amor socialmente proibido e John C. Reilly a arriscar o seu ganha-pão por amor; e Phillip Baker Hall a representar uma estrela caída, Seymour Hoffman gentil e generoso como um anjo-da-guarda, e sapos, muitos sapos, a cair do céu como na praga bíblica do Êxodo. É um exercício catártico num cenário apocalíptico.

Mas estas histórias independentes são interdependentes, e Magnolia transformou-se o primeiro grande filme mosaico em que as coincidências não são apenas coincidências, mas o destino e o karma a funcionarem de uma forma não linear. Traffic, Syriana, Contagion, Babel e Crash seguiram este filão, mas nenhum foi tão hábil na associação supostamente aleatória de acontecimentos. Talvez porque os atores sejam melhores. Ou porque a história seja melhor. Ou porque às tantas se ouve a Aimee Mann a cantar One ou Save Me e há uma desesperança profunda associada à letra e à voz que mexe com quem o vê.

Ou, então, porque os atores, a história e a banda sonora se submetem aos grandes mistérios da vida: porque é que eu sou eu, porque é que não sou outra pessoa, o que andamos aqui a fazer, o que vem a seguir a isto, enfim, a fragilidade do ser humano.

Talvez Magnolia seja tão bom porque a vida é mesmo isto.