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Expresso

O deus da voz do meu pai

Libenge é uma terra de terras vermelhas que fica mil quilómetros acima de Kinshasa e tem à sua esquerda o rio Ubangi, um dos afluentes do rio Congo. É um sítio de muitas árvores e de muitas borboletas e também de formigas-cabaça, que são carnívoras e escavam sulcos pelos caminhos onde passam. Contavam os africanos que essas formigas encarnadas como a carne tinham um dia devorado um recém-nascido e conta-me o meu pai que uma noite teve de regar um carreiro inteiro delas a gasolina e pegar-lhe fogo porque as filhas da mãe andavam à volta da casa onde dormíamos. A casa onde, segundo ele, terei ouvido a voz de deus pela primeira vez.

O deus de que o meu pai fala era um tipo bem-parecido, de cabelo comprido e de olhos claros, tal como o Cristo que o ocidente convencionou. E esse deus pai foi-me apresentado pelo Michel e pela Betty, o francês e a americana que viviam em Libenge, lugar onde se chegava em Cessnas pilotados por alguns pilotos gringos estouvados.

Uma vez mais, é o meu pai que me conta que o Michel e a Betty me colocaram os headphones na cabeça e puseram a voz a cantar. Eu teria três, quatro anos e eles não sabem qual a canção, mas eu quero acreditar que era a Time, do álbum Dark Side of The Moon, ou a Another Brick in The Wall, do The Wall. Porque mais tarde, quando as ouvi pela primeira vez em consciência, senti que já as tinha ouvido antes. O timbre. O solo de guitarra.

– Ele tem a voz de Deus, filho.

– Ok, pai.

Aconteceu quando andava no secundário e fui às VHS no armário debaixo da TV. Lá estava o concerto gravado na RTP, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright a tocarem e a cantarem em Veneza, com gente a ouvi-los em cima de barquinhos iluminados por velas. Deus e os outros. A partir daí, fui redescobri-los às cassetes e ao rádio, consumi tudo o que encontrava sobre eles numa era sem internet e cheguei orgulhosamente a evangelizar céticos na Faculdade – Bernardo, se me estiveres a ler, esta é para ti.

Gosto dos Pink Floyd desde que me conheço e não sou esquisito ao ponto de os separar por fases: o tempo de Syd Barrett, a entrada de David Gilmour, a takeover de Roger Waters e o adeus de Roger Waters. Em todos estes momentos encontramos instantes geniais e, sobretudo, inimitáveis. Há bizarrias, amor, críticas sociais, traumas irresolúveis e existencialismo. É um Rock & Roll sem yé-yé, progressivo, adulto e difícil, e se acham que terminei com os adjetivos, enganam-se.

É que os Pink Floyd são a minha banda preferida, de longe, e encontro um sem número de razões para me justificar: foram experimentalistas, compuseram melodias incríveis, fizeram canções que sobreviverão no tempo (e viram muito à frente no tempo), contrariaram o airplay na rádio com músicas com mais de quinze minutos, tem álbuns ao vivo que estão entre os melhores de sempre (Live at Pompeii e Pulse), e foram liderados por tipos inteligentes, melódicos e marcados pelo pós-guerra.

Eles são mais, muito mais do que a Wish You Were Here, a Money e a Comfortably Numb, embora a Confortably Numb seja das melhores coisas alguma vez escritas na história. Os Floyd também são a Green Is The Color, Have a Cigar, Welcome to the Machine, Fat Old Sun, Careful With That Axe, Eugene, Mother, e por aí fora.

Perdi a conta às vezes que assisti ao documentário do Live at Pompeii no YouTube, sozinho ou com um amigo e com vinho à mão, só pelo prazer de ouvir a Echoes e a Saucerful of Secrets cantadas pelo deus da voz e tocadas na sua Fender Stratocaster, preta e branca, clássica, com o som inconfundível que nos permite adivinhar que é ele quem está ali logo na primeira nota. Sereno, carismático e descalço.

O deus da voz do meu pai.