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Expresso

Este é o lugar mais seguro que existe

Se fechar os olhos ainda sinto o cheiro do carvão que a minha mãe usou para me desenhar o bigode. Naquele carnaval, o tema era o Zorro e eu tinha a máscara, a espada, a capa, a roupa e o chapéu pretos. O fato estava impecável e um fato impecável dá poderes impecáveis a quem o usa – pelo menos uma vez na vida todos os putos acreditam nisto.

No meu caso, a capa do Zorro era ideal para me pôr a saltar de uma portinhola de um armário de parede para o colchão; um pulo de dois metros e picos de altura que correu mal à terceira ou quarta tentativa. Escorreguei, falhei a aterragem, parti o braço.

Foi a última vez que usei uma máscara.

Não é que o tivesse feito muitas vezes antes; noutros carnavais, fora um mexicano, um índio, não me perguntem porquê, e o Super-Homem, coisa que terei todo o gosto em explicar.

Primeiro, a fatiota, provavelmente a mais conseguida que usei, com detalhes para entendidos como o cinto amarelo, o “S” no peito ou as botas vermelhas. A minha mãe, costureira de serviço, não deixou nada por fazer e eu vesti-o com orgulho.

Naquele tempo, eu e os meus primos andávamos a ver os Superman 1 e 2 do Christopher Reeve em VHS, dois filmes poderosos para crianças impressionáveis. E eu andava tão absorvido naquilo que tinha sonhos recorrentes nos quais voava; não tinha visão raio-x nem força sobre-humana, apenas voava, sobre a minha casa, as casas dos meus primos e dos meus amigos.

Com o tempo, fartei-me do Super-Homem por ser unidimensional, previsível e chato, porque a perfeição também é uma chatice, e aproximei-me do Homem-Aranha, do Batman e do Wolverine, porque são complexos, consumidos pela culpa, perseguidos pelo passado – e porque são solitários. Lia as BD e depois passei para o cinema e entretanto devo ter visto quase todos os filmes de super-heróis alguma vez feitos.

Fi-lo por gostou ou por auto-recreação, fossem eles bons ou maus, alguns deles muito maus e poucos muito bons: os Superman com Reeve, Brandon Routh e Henry Cahill; Batman com Michael Keaton mas também Val Kilmer, George Clooney e, sobretudo, Christian Bale; The Phantom com Billy Zane; Ryan Reynolds a fazer de Green Lantern e de Deadpool; Ben Affleck em Daredevil e Dawn of Justice; Chris Evans como Tocha Humana (Fantastic Four) e Captain America; Downey Jr. no Iron Man; todos os Vingadores; o Hulk de Eric Bana e de Edward Norton, os Spiderman com Tobey Maguire e Andrew Garfield; Blade, Punisher, Ghost Rider, Hellboy, Thor, Doctor Strange, Suicide Squad e X-Men.

De todos, Dark Knight de Christopher Nolan era o meu preferido. Porque Heath Ledger faz do Joker um agente do caos, anárquico, violento e com deixas inesquecíveis (“isto é o que acontece quando uma força imparável encontra um objeto inamovível”); e porque Nolan realiza blockbusters com histórias lá dentro. Este Batman era de longe o melhor dos filmes de super-heróis até Logan de James Mangold encurtar as distâncias.

Estamos em 2029. Aparentemente, não há mutantes porque estes foram proscritos e Logan é um motorista de limusines gasto pelo tempo e pelo uso. A criatura inquebrável não é imortal. O Wolverine é alcoólico, tem feridas pustulentas nos nós dos dedos das mãos, usa óculos para ler as bulas dos medicamentos que toma; está velho e não é o único.

Logan vive com o Professor Charles Xavier, entretanto perdido no Alzheimer e no tempo, demente, impaciente e acamado num bunker algures no México. É a dinâmica entre ambos, de um filho que carrega o pai ao colo nos momentos mais íntimos, que sustenta o filme que nada tem que ver com os anteriores desta série a que os americanos costumam chamar franchise.

Neste há rugas, palavrões, insultos, decapitações, mutilações, crianças abusadas, cores secas como o deserto, e perderam-se os tons azuis e também os fatos apertados, as naves e as salas herméticas. Logan é uma história crua e violenta, sobre mortalidade, velhice, relações funcionais e disfuncionais. E é, num jeito retorcido, uma história de amor entre um pai, um filho e uma filha deste. A família é o lugar mais seguro que existe, com amor e pessoas que gostam umas das outras, dirá o Professor X.