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Expresso

Aqui, o leão e a hiena são bípedes selvagens, violentos e amorais. São homens

Um dos lados da família vem de uma aldeia na Serra de Tomar, que fica no Ribatejo. Chama-se Barreiras e é pequena e nela cabem minúsculas pseudocomarcas, seis que eu me lembre, a Barreira Pequena, a Barreira Grande, o Outeiro da Barreira, o Ventosel e a Eira Velha. Talvez sejam referências geográficas a mais para um lugar que é atravessado apenas por duas estradas, mas a gente das Barreiras leva as fronteiras a sério – se eu sou da Barreira Pequena o outro é da Barreira Grande e no dia da santa padroeira cada um leva aos ombros a fogaça que diz respeito à zona de onde é natural.

É territorial e marialva e estende-se a outras aldeias da freguesia, algumas das quais se gosta só porque sim e de outras nem por isso, por nenhuma razão especial a não ser por causa daquela vez em que alguém se engalfinhou com outro numa noitada. São coisas que ninguém esquece, mesmo que os anos tenham passado e ninguém se lembre porque aconteceu, apenas que aconteceu. Os ingleses chamar-lhe-iam bad blood, acredito que é mau vinho.

Lembro-me de uma noite em que tipos de má rês, velhos conhecidos dos aldeões a propósito de outros quinhentos, decidiram fazer uma visita às Barreiras. Como estavam bêbados e como estavam tomados de ponta, a aldeia moveu-se como um organismo vivo, um vigilante coletivo que escondeu paus em sítios estratégicos, que se camuflou no mato como um sniper de calhaus na mão, à espera do inevitável – quando os malandros deram o primeiro passo e armaram a confusão, as Barreiras cercaram-nos e eles fugiram, escorraçados pelo medo e pelas pedras ou pelas enxadas brandidas no ar.

Não houve PSP nem GNR, apenas a populaça. E as Barreiras sentiram-se vingadas.

Foi uma estupidez, porque as milícias, espontâneas ou organizadas, são uma estupidez. É esta mesma estupidez carregada de testosterona que está na base do documentário “Cartel Land”, de 2015, em que as pedras, as enxadas e o paus são trocados por revólveres, punhais, catanas, coletes kevlar e metralhadoras; e pessoas normais transformam-se em soldados de infantaria investindo em cruzadas contra o mal que lhes aparece sob a forma do traficante de droga.

O filme acompanha um grupo americano e outro mexicano cuja missão é enfrentar os cartéis na fronteira com o EUA e no sul do México; no Arizona, onde está Tim “Nailer” Foley, e em Michoacán, onde está o doctor José Manuel Mireles.

Os dois lideram as suas respetivas milícias, a Arizona Border Recon e a Autodefensa, e se tivesse de escolher entre as duas histórias ficar-me-ia com a mexicana – e é óbvio que o realizador, Mathew Heineman, fez a mesma escolha – por ser tão crua e improvável como uma obra de ficção, estilo “Sicario”. Seja como for, são eles que carregam o “Cartel Land” às costas. E é através deles que vivemos a violência.

O americano

Tim Foley é um ex-toxicodependente desempregado e remendado que decidiu tornar-se vigilante para “fazer cumprir a lei onde não há lei”. Usa barba rala, patilhas compridas, tem a pele curtida pelo sol e olhos azuis brilhantes como os de Henry Fonda; naquela paisagem e com planos fechados, julgamos estar num western do século XXI.

Foley, surpreendentemente articulado e carismático, anda para trás e para diante na sua pick-up, vestindo um uniforme militarizado, cheio de armas e com um walkie-talkie para comunicar com os outros membros da Arizona Border Recon. Diz que faz o que faz porque os “ilegais” atravessam a fronteira e inundam o mercado de trabalho, deixando os do lado de cá sem nada. “Chamam-nos racistas, mas a esses digo-lhes para virem cá abaixo [ao Arizona] que eu faço-lhes uma visita guiada pela fronteira.”

Numa dessas patrulhas, Foley e os seus descobrem um punhado de mexicanos petrificados pelo medo dos disparos. Só um deles fala inglês e é a esse que dirigem perguntas sobre o que andam ali a fazer. Provavelmente, não estarão a fazer nada, mas ninguém os ouve. O Arizona Border Recon intimida e prende, indiferente às consequências legais.

E o mexicano

O doctor José Manuel Mireles é médico cirurgião, usa um chapéu preto, dá ares de Omar Sharif, é mulherengo, e a primeira vez que o vemos traz uma arma automática pela mão. Do nada, surgem caveiras e percebemos logo que a história aqui é outra. “Eles agarraram em bebés pelos pés e esmagaram-nos contra as rochas.”

Em Michoacán morre-se muito e toda a gente sabe como e porquê – por culpa dos Cavaleiros dos Templários. Os membros deste cartel disparam, decapitam e decepam os membros das gentes das pequenas cidades e vilas que ficam tomadas pelo medo e pelo terror. E é neste contexto que Mireles decide formar a Autodefensa, um grupo armado que faz a sua justiça percorrendo, encurralando e torturando os traficantes – em casos extremos, matando-os

Às tantas, Mireles perde o controlo da sua milícia, cujos elementos começam eles próprios a traficar à parte, e será traído pelo “Papá Estrunfe”. Não há preto ou branco, é irónico e trágico e segue o guião de um filme de Hollywood. Acontece que é real.

Mathew Heineman, que passou nove meses a filmar no México, está presente em todas estas situações, expondo-se ao perigo extremo que é o de ter criminosos a disparar contra o jipe em que viaja com a Autodefensa. O realizador manteve o sangue-frio – numa entrevista, garantiu que se “focou apenas em focar e no botão rec” – quando filma um vigilante a interrogar um traficante no banco de trás de um carro, um traficante de joelhos a ser sovado e outro prestes a levar com uma bala para depois ser enterrado. “Não quis interferir em nada, apenas filmei. Não é esse o meu papel.”

É como David Attenborough num episódio da BBC Vida Selvagem, mas aqui o leão e a hiena são substituídos por bípedes violentos, anacrónicos e amorais. São homens.