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Expresso

A estrada é longa e a perder de vista, com casas que não se avistam e gente que ninguém vê

E ela perguntou-me:

–Do you have a change for five dollars?

Teria 1,90 m e era grande e ossuda e pesada como um segurança de discoteca. Vestia um fato de treino azul coçado que lhe destapava a gravidez.

– C’mon, do you have change for five dollars? It’s for smoks.

Ela estava a fumar, tinha os olhos desmaiados e faltavam-lhe alguns dentes.

– Sorry, I don’t.

Disse-lhe a seguir que eu não era dali e que estava apenas de passagem, mas isso ela já não ouviu.

– Hmmm, hmmm.

Coçou o cabelo com o pente de três dentes lá espetado e seguiu caminho. Do lado de dentro da cabine, o rececionista de bigode e de chapéu disse-me que estava ali de serviço a toda a hora, para qualquer coisa. Repetiu: estou aqui para qualquer coisa que seja preciso e a qualquer hora.

Aquele motel de estrada em Memphis não era o Bates Motel, mas tinha potencial. Nenhum dos carros do parque de estacionamento tinha jantes, matrícula traseira e todos eles estavam batidos. Havia proxenetas e havia prostitutas e provavelmente o recepcionista-segurança-conselheiro também era o dealer dos tipos que estavam a fumar dentro dos Cadillac. Às tantas, uma senhora de cabelo branco desgrenhado dos seus cinquenta anos abriu a porta do quarto no primeiro andar, gritou contra o mundo e contra os “sacanas que por aqui andam”, cuspiu compulsivamente para o chão – e eu arranquei dali para fora.

Dormiu-se algumas horas dentro do Ford junto ao aeroporto de Memphis até a luz de uma lanterna do segurança bater no vidro do carro e despertar o resto da viagem.

De Memphis a New Orleans eram 10 horas de caminho e eram sempre a descer, mostrava o GPS. A coisa fez-se e dali seguiu-se para Austin e Dallas, através do Texas, Roswell e o museu dos OVNIS, no New Mexico; a Route 66, o deserto do Nevada, o Rio Grande, Utah, Las Vegas e San Francisco.

A América escondida é a terra dos cowboys das pickups que te avisam para o frio e para a tempestade, das reservas de índios de índios explorados e confinados ao cantinho que o branco lhes reservou, dos grandes parques naturais e dos móteis manhosos, da neve e seca, do calor e do frio, o bom e o mau. E a América profunda também é uma estrada longa e a perder de vista, com casas que não se avistam e gente que ninguém vê. E é, por isso, um lugar de recomeços, onde tudo é possível ou, pelo menos, onde tudo parece ser possível se nos fizermos ao alcatrão.

Acho que é por isso que há tantos filmes de estrada americanos, os tais road-movies, como – e cito alguns de cor – “Thelma & Louise”, “Sideways”, “Easy Rider”, “Rain Man”, “Into the Wild” ou “Paris,Texas”. E o “Hell Or Highwater”, que está alinhado para o Oscar como um corpo estranho no meio de histórias duras, uma inverosímil e outra dançável. Vi o “Arrival”, “Moonlight”, “Fences”, “Manchester By The Sea”, “Lion”, “Fences”, não consegui vencer o preconceito dos musicais no “La, La, Land”, e ainda vou ver “Hidden Figures” e “Hacksaw Ridge”.

Sei que “Hell Or Highwater” não sairá vencedor, por não trazer nada de absolutamente novo e porque é simples na sua conceção e execução. Ainda assim, é o meu preferido e talvez o seja porque tem Jeff Bridges – e um filme com Jeff Bridges é melhor do que qualquer filme sem Jeff Bridges.

O “Dude” desleixado e diletante em “Big Lebowski”. O charmoso Jack Baker em “Fabulous Baker Brothers”. O adorável extraterrestre em “Starman”. O implacável Rooster Cogburn na adaptação dos Cohen em “True Grit” que faria corar John Wayne se o Duke fosse homem para essas coisas. E o alcoólico, errante, canalha e, apesar de tudo, talentoso e generoso Bad Blake em “Crazy Heart” que lhe valeu o Oscar. Está, agora, nomeado para ator secundário.

Em “Hell or Highwater”, Bridges é Marcus Hamilton, um xerife quase, quase a retirar-se, um fluxo humano contínuo de piadas racistas que tem como colega um índio mexicano católico chamado Alberto Parker (Gil Birmingham). Marcus é um tipo envelhecido, tal como Bridges é, e vê-lo deitado a fazer uma sesta numa vila-de-ninguém ou a suar profusamente quando sobe uma colina mostra que o ator é daqueles que encontra conforto na idade que tem. Ele está velho e quer mostrar-nos que está velho.

É um desempenho intenso, cheio de ironia e de diálogos cheios, num filme sustentado basicamente por quatro atores, porque a esta dupla somam-se os irmãos Toby e Tanner Howard, Chris Pine e Ben Foster.

Um é bonito, talvez bonito de mais para aquela vida porque é bonito como Robert Redford; o outro é apenas perigoso, e ambos assaltam os bancos dos Bancos que levaram o dinheiro do primeiro na crise.

Toby quer que a sua ex-mulher e os seus filhos tenham uma vida porque a dele sempre foi pobre, pobre até aos ossos, uma pobreza que foi passando de geração em geração até se tornar uma doença.

Os Howard procuram e roubam bancos, e procuram, roubam e escondem carros, guiando-os e sendo perseguidos por outros em estradas intermináveis que tocam em cidades que dizem estar “mortas”. Um dos irmãos morre, um dos polícias sente-se vingado pela morte do colega, e os dois que sobrevivem levam o filme até ao fim a falar um com o outro.

– If you stop by, maybe i’ll give you peace.

– Maybe, I’ll give to you.

E fazem-se à estrada. Outra vez.