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Expresso

Os subúrbios são os lugares onde os fantasmas vivem

O Morais sentava-se ao meu lado. Ambos rodávamos a cabeceira dos cadernos para a esquerda, dobrávamos o pulso para dentro, púnhamos o cotovelo para fora e inclinávamos o corpo sobre o tampo da mesa para escrever. Éramos os dois canhotos, partilhávamos a mesma carteira, a mesma sala de aula, andávamos na mesma turma e na mesma escola – e não tínhamos nada que ver um com o outro.

Ele era popular, eu andava ali no limbo, a meio caminho entre os bem-comportados e os rebeldes da Pedro Alexandrino, que fica na Póvoa de Santo Adrião.

Se os subúrbios tivessem um subúrbio, era aí que ficava a Póvoa de Santo Adrião, um lugar que é um dormitório onde nos anos 90 a heroína transformou gente boa em gente má, em fantasmas brancos e mestiços que assaltavam com seringas na mão à saída da escola.

– O que aí tiveres é meu. Vê lá se não te pico com esta merda.

Aquela merda encostada à barriga.

Nem tudo era mau e a Pedro tinha os seus cromos e os seus craques. O Morais era um deles, porque jogava no Benfica como defesa-esquerdo, claro, e não participava nos torneios da escola porque o clube não deixava – se deixasse, onde o Morais estivesse, era onde a bola estava. Já vos disse que era craque.

O Morais

O Morais

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Também havia o Veiga, um mulato gigante e também ele jogador do Benfica; o Nené, que chegou a jogar no Braga nos anos 2000; o Tatá, que tentou a sorte no Boavista, e o primo do Tatá, chamado Carlitos, que se diz ter sentado no banco o Dani nos miúdos do Sporting – até se transformar num daqueles fantasmas diurnos; por fim, era lá professor o setôr Arnaldo que agora é adjunto de Rui Vitória no Benfica.

O maior era o Morais. Foi o Morais.

O Morais outra vez

O Morais outra vez

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O Morais, de nome completo Hugo Eduardo dos Santos Morais, nom de guerre Hugo Morais, teve uma boa carreira: Marítimo, União da Madeira, fez parte da equipa do Leixões que eliminou o Benfica da Taça em 2008-09, Académica, e outra vez União da Madeira.

No secundário, ele era o íman dos rapazes e das raparigas da escola, porque todos os miúdos queriam uma celebridade futebolística na vida deles e porque as miúdas gostavam de um rapaz bem parecido que já ganhava os seus trocos para roupa e calçado: jeans Uniform, ténis Airwalk.

Mas um certo dia, o Morais apareceu vestido com um blusão de cabedal preto, presumo que afivelado e com as golas para cima, e a reação da malta foi epidérmica:

– Eh pá, ó Morais, o que é isso? És o Boss?

Até o Morais teve os seus momentos maus.

FOTO LENNOX MCLENDON / AP

Naquela idade e naquele contexto, a adolescência e os Metallica, Guns’N’Roses, Rage Against the Machine e Nirvana, era proibido ouvir música do tempo dos pais e dos avós.

O Morais passara oficialmente a piroso e se a memória não me falha não voltou a aparecer no recreio com aquele casaco. Nem ele podia aguentar ser comparado com o tipo de barbas e da guitarra e da camisa de manga cava, o bimbo que cantava “Born In The USA” – era isto que trauteavam ao Morais para o irritar.

Aqui entre nós, eu ouvia secretamente aquela canção. Eu gostava daquela canção e gostava ainda mais de outras canções de Bruce Springsteen.

O Bruce já tinha entrado na minha vida através do melhor amigo do meu pai que tinha o mesmo nome que o meu pai tem. Um dia, ele emprestou-me o “Greatest Hits” e aquela foi a minha porta de entrada para a América: carros, viagens, desfavorecidos, classe trabalhadora, mulheres, sonhos, poder, contrapoder, tristeza e melancolia.

A “Born To Run”, a “Thunder Road” e a “The River” começaram a fazer parte de mim, porque a forma que ele descrevia aquelas cenas de esperança e de fuga era tão real como a cama em que eu me deitava com os phones ligados ao leitor de CD.

O Bruce é o melhor contador de histórias cantadas e acompanhou-me na adolescência, na vida adulta, dos vinte aos trinta e, qualquer dia, quarenta anos.

Portanto, quando lançaram a autobiografia “Born To Run”, fiz-me ao piso para uma prenda de Natal; queria lê-lo na língua nativa para perceber o que lhe tinha acontecido para se tornar naquilo que hoje é. Por outro lado, numa perspetiva cínica e assumidamente utilitarista, também queria descobrir se ele tinha talento para a prosa e que truques empregava para dar ritmo à escrita.

Ao longo de mais de quinhentas páginas [se já viram um concerto de Bruce ao vivo, sabem que a economia de tempo é um conceito vago para o Boss] o cantautor despeja a sua vida a uma velocidade incrível, sem pausas, como se fosse uma das suas canções num formato gigantesco. Reconhecemos o vocabulário, os lugares, as personagens e tudo começa a fazer sentido.

Bruce é um italo-irlandês de Freehold, New Jersey, um subúrbio pobre de casas cheias de tios e avós e primos e sem água quente, filho de um pai alcoólico e paranoico que gostava dele mas que não o suportava, nascido de uma mãe generosa e incondicionalmente paciente. Ele é um tipo imodesto no seu talento, com uma ética de trabalho incrível, incapaz de ler uma partitura mas capaz de imitar o som dos seus ídolos Elvis e Dylan, um solitário fechado no quarto a praticar guitarra, líder silencioso em concursos locais de música e que aprendeu dança para poder dançar com elas. Um adolescente que nunca se sentiu tentado pelo álcool ou pelas drogas, senhor do seu nariz, ditador de um grupo (“a democracia é uma bomba-relógio em bandas de Rock and Roll”), viajante errático de costa a costa, um quase mendigo a viver da boa-graça dos amigos mais velhos quando a família se mudou para a Califórnia e ele decidiu ficar em Freehold. E um homem que compôs dois álbuns completamente diferentes ao mesmo tempo (“Born In The USA” e “Nebraska”) enquanto lutava contra uma depressão que nunca mais o largou. “Black melancholy.”

“Black melancholy.” Diz ele que são os fantasmas de quem nunca conseguiu agradar ou corresponder às expectativas do pai. São os fantasmas de quem procurou figuras paternas noutros sítios e nunca os encontrou. São os fantasmas de uma infância difícil e problemática de quem quis ser mais do que o “subúrbio merdoso” ao qual estava confinado.

Quem vem de latitudes como estas sabe do que ele está falar.