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Expresso

Um negro nunca poderá saber o que é ser branco e ter um branco a servi-lo usando um nome que não é o seu

Ainda hoje é o nome que me desconcerta. Não sei como se chamava o Frédéric, se era Frédéric, assim, à francesa, se o Frédéric respondia por Frédéric na casa dele, se assinava como Fréderic ou sequer se sabia escrever. Como outros naquele lugar, o Frédéric adotara um nome branco, falava francês e guardava o Lingala para si e para os seus, e às vezes para o meu pai e tio, que dominavam a língua dos negros.

O Frédéric era um pequeno e robusto colosso de barba. Teria, no máximo, 1,70m, mas aos meus olhos era um gigante que rebentava as mangas das t-shirts quando dobrava o braço que aguentava o peso de três ou quatro crianças penduradas nele.

Ele dizia que lhe tinham cosido duas grandes batatas dentro de cada um dos seus dois grandes braços e eu acho que cheguei a acreditar naquilo até ao momento em que me disseram para deixar de acreditar.

Aconteceu mais ou menos na mesma altura em que me foi anunciado que o Pai Natal era uma grande mentira:

– Achas que há renas e neve em África?

O Frédéric existia e considerava-o meu amigo. Eu era o “jeune homme”, o “petit patron”, o “Pedrrro”; ele apenas era.

Nunca visitei a casa dele, nunca lhe vi a mulher e os filhos – o Fréderic dizia que tinha dado o nome da minha irmã a uma das filhas – mas comi muitas vezes pão que ele amassou e cozeu. Quando a guerra começou a rebentar, fomo-nos todos embora e ele ficou lá. Não me recordo de lhe dizer adeus. E nunca mais soube dele.

Mais tarde, assisti a conversas da família nas quais se lembrava o Frédéric e a sorte que ele tivera de ter um emprego, dinheiro e bons patrões; os outros que viviam fora do “campo” (era assim que falávamos daquele gueto de brancos) estavam bem piores do que os que estavam dentro.

O que nunca dissemos uns aos outros é que a sorte era nossa, e não dele, porque nascêramos brancos e os brancos são privilegiados em qualquer contexto. O Frédéric nem usava o nome verdadeiro e éramos nós que estávamos no país dele.

Aquele era uma discussão e um argumentário estúpidos, serviam apenas para desculpabilizar, libertar a consciência do peso da exploração.

Porque a tese do trabalho e das oportunidades iguais para todos num mundo que se autorregula é, e será sempre, risível para quem nasce pobre e para quem nasce negro. E é triste – não no sentido que Trump dá à palavra “sad”– e sombrio que haja uma mecânica e uma engenharia social a aproveitar-se desta condição.

O documentário “13th”, que vi há dias, é um exercício sobre este tema, feito a partir de um ponto de vista singular: os EUA têm 5% da população mundial, mas têm 25% da população mundial que está na cadeia; 40% desses 25% são negros e os negros não chegam a ser 13% da população norte-americana. As contas não batem certo e a origem deste problema remonta à 13.ª Emenda (daí o “13th”), que torna ilegal a escravatura mas diz que o trabalho forçado sem pagamento pode ser usado como castigo por crimes cometidos.

Foi assim que se passou: após a abolição da escravatura, muitos ex-escravos negros foram aprisionados por coisas comezinhas e insignificantes, como ociosidade e vadiagem, e reconduzidos aos lugares de onde tinham saído para que a economia sulista (que dependia dos braços dos negros) pudesse continuar.

Depois, seguiu-se o filme “Birth Of A Nation”, que diabolizava o negro, retratando-o como um violador de brancas, o que ajudou à criminalização da cor e à construção do mito social do preto-mau e do branco-bom.

O “13th” atravessa, depois, a segregação, as marchas pelos direitos cívicos, as políticas de Nixon, Reagan e até de Clinton que contribuíram, propositadamente, para separar o americano negro do branco. Por questões políticas. Pelos votos e pelo poder que deles advém.

Por exemplo, a política “War On Drugs” de Nixon e de Reagan que criminalizou a toxicodependência e castigou muito mais os consumidores de crack (pobres e negros) do que os de cocaína (a elite); ou a “Three Strikes Your Out”, de Bill Cliton, que aumentou o número de presos nas cadeias norte-americanas.

Num momento constrangedor e embaraçante, e que nos alerta para quem Trump realmente é, recupera-se aquela conferência de imprensa (e aquela página paga num jornal) em que este insistiu na pena de morte para cinco rapazes negros por suposta violação de uma branca no Central Park de Nova Iorque – os miúdos estavam inocentes.

E ainda há a história de Kalief Browder, confinado à solitária da prisão de Riker’s Island durante três anos por nunca ter assumido um crime que não cometera. Mais tarde, provou-se que Browder tinha razão, mas as tareias dos outros reclusos e dos guardas e a violência psicológica transformaram-no para sempre. Browder já era um homem livre quando se matou em 2015.

O que fazer contra isto? Falar. E denunciar. Van Jones, um tipo que me habituei a ver na CNN, é um dos entrevistados do “13th”, e alerta para a inexistência de uma voz social negra porque todos os líderes foram assassinados em diferentes momentos de afirmação – Malcolm X, Luther King, Fred Hampton – e que o FBI de Hoover e o establishment republicano de então ainda têm as mãos sujas.

Pelo meio, fala-se sobre a ALEC, uma empresa especializada em lóbis que tem (ou teve) como aliados a Wal-Mart (maior distribuidora de armas dos EUA) e a Correction Corporations of America (construtora privada de prisões). A ALEC fez o seu trabalho para promulgar leis que acentuaram os delitos menores e puseram mais – muito mais – gente nas cadeias. E agora que há gente a mais nas cadeias e que isto se tornou um problema, a ALEC propõe outras soluções milagrosas. “E se eu puder ganhar uns patacos com isto, vocês não se vão importar, certo?”, diz, meio a brincar e muito a sério, um dos seus representantes. Idiotices.

É verdade que o “13th” peca por não ter contraditório e apresentar poucas vozes discordantes, mas este não é um exercício jornalístico – é um filme. Ainda assim, Ava Duvernay, que também realizou o “Selma”, introduz uma surpresa, o antigo presidente da Câmara dos Deputados, o republicano Newt Gingrich, que reconhece erros e diz a maior das verdades: “Nenhum branco pode saber o que é ser negro”.

Tal como um negro nunca poderá saber o que é ser branco e ter um branco a servi-lo usando um nome que não é o dele.