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Expresso

O cinismo depois da saudade (“daqui a 10 anos seremos uma cidade cheia de prédios vazios”)

Um dos nós andava pelo Rossio no outro dia quando deu de caras com aquilo. “O Pirata”, escreveu ele no whatsapp, “fechou”. “É o fim de uma era.” Reparem que o C. não disse o fim do mundo, mas o fim de uma era. Ou seja, parte do nosso mundo já era.

O Pirata era o lugar onde a malta se juntava para beber um pirata, um vinho gaseificado, ou um perna de pau, que é um pirata com ginjinha, antes do jantar que antecede a noitada que anuncia a ressaca. O Pirata, li algures, “vai dar lugar a um empreendimento de 46 apartamentos de luxo” para alugar a turistas ricos. O C. resumiu a coisa assim: “Daqui a 10 anos seremos uma cidade cheia de prédios vazios”. O cinismo depois da saudade.

Uma das primeiras vezes que vi O Pirata não foi para beber um pirata; não entrei lá dentro, nem me debrucei sobre o balcão a pedir o cálice rosado para bebê-lo na esplanada ao final da tardinha. Nada disso. O Pirata entrou na minha vida de soslaio, nos tempos em que fui à megastore da Virgin, que também já não existe ali, comprar os meus CD, que teimam em existir na minha existência.

Um deles foi o “Be Here Now” dos Oasis, em agosto de 1997, que dei à irmã como prenda de anos. Ela gostava deles, eu também gostava deles e esse gosto em comum terá remendado a relação mano-mana na altura. Mais tarde, foi num concerto dos Oasis a que os dois fomos na Praça Sony que ganhei um amigo para a vida, também ele um dos futuros frequentadores d’O Pirata. Os três, anos depois, vimo-los no Pavilhão Atlântico já com o resto do grupo do whatsapp.

De vez em quando, e quando os ouvia, era disto que me lembrava; e desde o documentário “Supersonic” não me lembro de outra coisa porque voltei a ouvi-los.

Para quem não viu, digo-vos que o “Supersonic” é um filme feito por um fã e para os fãs, que cobre apenas os anos bons e literalmente loucos da banda dos Gallagher, à volta dos quais o doc se desenvolve. É só “Glory”, nada sobre o declínio: os álbuns maus, as trocas constantes do alinhamento, e o fim após o Dig Out Your Soul, o registo que podia salvá-los da extinção não fosse o derradeiro arrufo entre os Gallagher ainda por explicar – mas eu não me importei, também sou fã.

É a aventura de como Liam tinha uma banda e chamou Noel para ser o guitarrista e o letrista, de como alugaram uma carrinha e foram tocar pedrados a Glasgow; e de como de lá saíram contratados por uma editora e se transformaram num dos maiores grupos rock’n’roll do pós-grunge em menos de três anos. Também lá estão as estroinices de Liam num ferry para Amesterdão e num concerto no Whisky a Go Go, o bastão de críquete que Noel aloja no crânio do irmão, o despedimento do primeiro baterista e a falta de pedalada do segundo para acompanhar o sex-drugs-R&R. E o pai abusivo que batia na mãe, no irmão mais velho e decidiu vender mentiras sobre a família a tabloides. É neste momento íntimo, constrangedor e intrusivo, em que se reconta a história de Liam a querer enfrentar o pai, que se escuta a frase: “My father beat the talent into me”.

É Noel quem a diz.

Ouvem-se as vozes dele, Liam, Paul “Bonehead” Arthurs, Paul “Guigsy” McGuigan, Tony McCarroll e da mãe dos irmãos ao longo de quase duas horas em que não os vemos em momento algum a não ser em gravações e fotos antigas. E não damos pela falta de ninguém, porque é tudo feito de um fôlego, num ritmo notável, com plasticidade, animações e os refrães épicos a sonorizar uma experiência nostálgica.

Os Oasis, num determinado período e num determinado contexto, foram incríveis. Nas palavras de Liam: “We weren’t the best musicians in the world but we had spirit”. Dito de outra forma, os Oasis eram frágeis tecnicamente – qualquer um de nós, com mais ou menos traquejo chega aos acordes da Wonderwall – mas compensavam com atitude e musicalidade. E uma autoconfiança barra bazófia que os levava a achincalhar os seus pares ao vivo, a cores e em direto. “Has-beens shouldn’t present awards to gonne-bees”, foi o que Noel atirou ao receber os prémios Britt Awards das mãos de Michael Hutchence.

Mas havia algo mais que me atraía neles. Os tipos vinham de um lugar difícil e tinham um talento limitado, reconheço a esta distância, mas de uma forma ou de outra, com sorte, competência, sacrifício, drogas e álcool, acabaram por tocar para 250 mil pessoas em Knebworth, em 1996 – e mantiveram-se genuínos durante toda a viagem. Arranjaram confusões, discutiram em público, ameaçaram os Blur e o público, conservaram a pose arrogante e irritante em palco e assumiram o consumo continuado e consistente de drogas.

Hoje, no tempo das redes sociais, da interação digital com os fãs, dos paparazzi de smartphones, dos Q&A, da relevância da irrelevância, dos cantores saídos de concursos de talentos, não imagino uma banda tão desprendida como os Oasis.

Portanto, aquele momento em Knebworth, pré-internet, irrepetível para eles e para nós, terá sido o início de outra coisa qualquer. É mais ou menos como os prédios modernos e sem alma que se substituem aos outros onde habitavam a autenticidade e a pureza.

É o fim de uma era.