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Expresso

Até prova em contrário, é no boxe que estão as melhores histórias

Não teria mais de nove, dez anos quando vi o meu primeiro Rocky, o Rocky IV, e calhou vê-lo depois da Queda do Muro e acho – acho – que na altura compreendi a mensagem da Guerra Fria que atravessa o filme. Não que estivesse particularmente atento ao fenómeno, mas a verdade é que eu fui um dos agraciados com a visão de David Hasselhoff em Berlim: em 1989, o Michael Knight ensinou geopolítica, vestindo um casaco com luzes de natal e a cantar Looking For Freedom.

No meu conceito redutor e infantil do bem contra o mal, o Rocky, no Rocky IV, vingou a morte do Apollo Creed ao derrotar o Ivan Drago, que se treinava em laboratórios, levava injeções (só podia ser batota), era grande como uma árvore e tinha uma namorada grande como ele. O Rocky dava-lhes, aos dois e no máximo, pelos ombros, mas estafou o cabedal na neve e ao frio, puxando carroças e machadando troncos na agreste Mãe Rússia. E ganhou, contra todas as minhas expectativas.

Eu não vira o Rocky I, II e III; não sabia que havia um guião a seguir, nem tinha forma de adivinhar que o homem deixava sempre o melhor para o fim – e que era indestrutível, embora tivesse essa ligeira impressão desde o meu primeiro Rambo, o Rambo II.

Nunca fui bom nas sequelas.

Tive de encontrar, então, o Rocky II, III, outra vez o Rocky IV e depois o Rocky V. E, por fim, o Rocky I. Ver o Stallone a esmurrar carcaças no matadouro, correr atrás de galinhas, pedir a benção ao Padre Carmine, engolir ovos crus, saltar à corda, e, sobretudo, vencer os adversários um a um, não porque fosse melhor do que eles, mas simplesmente porque queria mais do que eles, tornou-se uma espécie de mantra para putos sonhadores como eu.

Tudo era possível e tornei-me fã de boxe. E dos filmes de boxe.

Não por esta ordem, fui devorando estes: Raging Bull (Touro Enraivecido), The Fighter (Último Round), Southpaw (Coração de Aço), Cinderella Man, Rocky Balboa, Creed [completei a saga], Hurricane (O Furacão), Ali, Million Dollar Baby (Sonhos Vencidos), The Boxer (O Boxeur), Champ (Campeão), Belarmino; e, não me envergonho de o escrever, os péssimos Against The Ropes, Annapolis (Paixão e Glória) e Gladiator (não o de Russell Crowe, mas de Cuba Gooding Jr.). Fi-lo por gozo.

E, na passada segunda-feira, fui uma de cinco almas que assistiram ao Bleed For This (A Força De Um campeão) na sessão das nove da sala 7. Resumo-o aqui: é um filme baseado na vida de Vinny Pazienza, um pugilista que partiu a coluna num acidente de carro, treinou sozinho numa cave com um colete em halo, e regressou aos ringues para se sagrar campeão do mundo numa categoria dois pesos acima daquela com que começara a carreira.

Mais lugar-comum, menos lugar-comum, nada de novo aqui. A história de Bleed For This segue o caminho de quase todos os filmes de boxe alguma vez feitos: numa circunstância específica, o herói é chamado para um desafio, conhece um mentor, submete-se ao mesmo, treina, ultrapassa um revés, recompõe-se, luta e, ganhando ou não, sentir-se-á vingado no fim. É o padrão de narrativa chamada Hero’s Journey, definido por Joseph Campbell, e que está presente não só em obras deste género, mas especialmente em obras deste género.

Ou seja, estes filmes são praticamente iguais uns aos outros, quem viu um terá visto todos (excepto o Raging Bull, que é uma obra-prima), mas ainda assim a generalidade do público não se cansa. E eu faço parte da generalidade do público.

E, não tarda, sairá uma película sobre Mike Tyson, com Jamie Foxx, e outra sobre Rocky Marciano, com Jeremy Renner, e este é um sinal de que há um filão que continua a ser explorado em Hollywood, mesmo que este desporto esteja a perder notoriedade para os UFC desta vida.

Porquê? Já se escreveu sobre isto e há duas razões que explicam o sucesso.

A primeira: montar um filme de boxe sai mais barato porque não tem efeitos especiais e os cenários são a rua, o ginásio vetusto, a casa de luxo e a casa pobre; o que sai mais caro é o cachet do protagonista e já houve muito bom ator a entregar-se ao papel do boxeur.

Robert de Niro ou Daniel Day-Lewis já o fizeram, e até Marlon Brando o fez, e ainda que On The Waterfront (Há Lodo No Cais) não seja um filme de boxe, mas sobre um ex-pugilista, tem lá uma deixa que responde a tudo: “You don’t understand. I coulda had class. I coulda been a contender. I coulda been somebody, instead of a bum, which is what I am, let’s face it. It was you, Charley”.

Isto leva-nos à segunda razão – a menos cínica.

O boxe é um desporto solitário, duro, cru, violento e talvez primitivo, porque mata, e muitas vezes é a única forma que miúdos pobres de bairros ainda mais pobres têm de sair dali para ganhar o seu. Mas o boxe também é uma arte que se confunde com o xadrez, porque implica estratégia, velocidade de raciocínio e cabeça fria para não deitar tudo a perder quando se dá o queixo à morte.

E os filmes de pugilismo são o que são porque são sobre isto. Sobre a vida, sobre a violência e o sacrifício, sobre a redenção e a superação, sobre o tipo que não tem mais do que duas mãos para desferir golpes e um corpo para os encaixar. São contos trágicos, quase impossíveis e quase mitológicos, mas sustentados pela verdade das coisas.

Porque alguns dos filmes que referi basearam-se em atletas que de facto existiram, como Jake LaMotta, Rubin Carter ou James J. Braddock; e porque outros se inspiraram em factos reais de pugilistas menos conhecidos, e o melhor exemplo é o de Chuck Wepner, que sangrava abundantemente e esteve a um fio de bater Muhammad Ali, em 1975 –Stallone fez dele o seu Rocky Balboa.

Quem quer ser pugilista e quem chega ao topo tem de ser um homem diferente dos outros, pelos bons e pelos maus motivos: Joe Louis enfrentou a América profundamente racista dos anos 30 e 40 e só perdeu três combates em 70 (52 K.O.), Muhammad Ali mudou o nome, fintou o Vietname e tornou-se um ícone político; Emile Griffith matou Benny Paret no ringue, porque este não parou de chamar-lhe maricas (Griffith era gay) durante o combate; Mike Tyson foi o peso-pesado mais compacto, poderoso e rápido que alguma vez se viu, de voz doce e fã de columbofilia, mas caiu numa espiral de violência doméstica e de drogas que o levou quase ao suicídio.

Até prova em contrário, é no boxe que estão as melhores histórias. E até prova em contrário, o Rocky I é um dos melhores filmes de sempre.