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Expresso

O anjo original

The OA é uma série da Netflix sobre a qual não estou moralmente autorizado a revelar todos os pormenores para não estragar o efeito surpresa. Digamos que há uma rapariga cega que desaparece e reaparece anos mais tarde com a visão restabelecida e que se chama Nina − mas também Prairie e Original Angel − e carrega consigo cicatrizes nas costas porque algo de muito estranho lhe aconteceu. E é isso que ela contará mais tarde a quatro adolescentes e a uma professora, um grupo improvável onde cabem um bully, um órfão, um transexual, um filho de mãe alcoólica e uma mulher perdida no seu labirinto emocional.

Todas as noites, à luz de velas e depois de respeitarem um ritual, os seis encontram-se numa casa abandonada para ouvir histórias de raptos e de cativeiro, de experiências de um cientista louco feitas em pessoas que morrem e voltam à vida. E também de fábulas eslavas, de uma dança que ressuscita mortos - e aqui digo-lhe para espreitar o episódio número cinco (são oito), momento em que a série dá o salto sugerido nos quatro anteriores.

Sim, este é um mundo inverosímil e esta é uma obra do domínio do fantástico; e, sim, acredito que haja quem não tenha pachorra para uma série que é um filme de oito horas sobre sonhos, delírios, realidades alternativas, com coreografias contemporâneas e uma bruxa de sotaque. Já li e ouvi críticas iguais e semelhantes a quem viu a “The OA”, mas talvez estes não se apercebam que esta é basicamente uma história sobre contar histórias. Sobre as crendices, a religião, o sentido da vida e a importância da tradição oral e do que há de mais primitivo em nós, que somos o que somos porque em primeiro lugar, antes de inventarmos a escrita, uma geração se lembrou de passar à seguinte o que sabia. E que isto é verdade até hoje.

É que em todas as famílias há sempre alguém com jeito para contar as melhores histórias nas melhores noites, que são as noites em que o clã se junta. Costuma ser um dos mais velhos, ou até o mais velho, e não é o patriarca ou a matriarca, porque esses têm de manter as distâncias para pôr as coisas a andar. Coisas como as mãos bem lavadas, a refeição, o vinho e água na mesa, a disposição das cadeiras, dos pratos e dos talheres; a dinâmica da refeição, entenda-se.

Depois do jantar e debaixo da luz da parede caiada, o tio contador de histórias de boina preta lá se senta no alpendre e transforma-se no sargento do Ultramar, no seminarista sem jeito para servir Deus, no exímio treinador de cães de caça à lebre - e no rapaz a quem um dia disseram que as bruxas existem e que se riem e vivem nas árvores.

Segue-se o silêncio, breve, e depois ouvem-se as árvores a mexer e os risos das bruxas; e Deus, as caçadas e a guerra em Angola estão ali à frente de toda a gente. Acontece tudo dentro da cabeça de cada um e esta é a magia e este é o poder de uma história bem contada: entranha-se na carne.

Esta é a moral de “The OA”.

Este é um novo espaço semanal dedicado a fenómenos da cultura pop. Os textos serão sempre de Pedro Candeias. Este é o primeiro.