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Antes pelo contrário

Solidariedade, dizem eles

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Governo pede a solidariedade dos funcionários públicos. E irá pedir aos restantes trabalhadores. De fora deste apelo continuam, claro, os de sempre.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Desde 2000, os funcionários públicos perderam 6% do seu poder de compra. Em dois anos, o Governo reduziu em mais de 11% as despesas com pessoal. Boa notícia? Nem por isso. Porque foi exactamente nessa percentagem que aumentaram as despesas com a aquisição de serviços a privados, muitas vezes em negócios difíceis de explicar e sempre com os mesmos nomes a eles ligados.

Ou seja, o que retirou em salários foi para outros lados. E de alguns, como as assessorias externas, vamos tendo notícias. Basta dizer que o maior empregador de juristas do país gasta fortunas com pareceres externos. Nas parcerias público-privadas continua-se a perder rios de dinheiro, como já avisou o Tribunal de Contas. Bem sei que não se fazem amigos a cortar nestes negócios. Mas os cortes poderiam começar por o desperdício e duplicação de funções.

Pediu o secretário de Estado da Administração Pública que os trabalhadores da função pública fossem solidários com um país em dificuldades. Passemos então das despesas para as receitas para ver de onde não tem vindo solidariedade alguma. O Governo continua a recusar-se a exigir aos bancos que paguem ao fisco o mesmo que o resto das empresas. Apesar dos seus lucros no último ano não se terem ressentido com a crise. Ao contrário do que acontece na maioria dos países europeus, as mais valias bolsistas conseguidas depois de um ano continuam a não pagar coisa nenhuma.

Nos últimos cinco anos, o Governo entreteve-se a fazer dos trabalhadores do Estado o bode expiatório de todos os seus problemas. Apostou na estratégia de virar trabalhadores contra trabalhadores. Novos contra velhos, precários contra seguros, privados contra públicos. E foi muitas vezes bem sucedido. Agora, pede de novo sacrifícios àqueles que tem tratado como lixo. Depois de ter mostrado que gere os ordenados dos funcionários públicos ao sabor dos calendários eleitorais (perde-se poder de compra todos os anos, compensa-se qualquer coisa em campanha eleitoral), não é fácil que os funcionários sejam sensíveis a falas mansas. Como se viu ontem, não o são.

Depois de pedir qualquer coisa a quem nem sequer cheirou esta crise, de ser mais comedido nas despesas com o pessoal político que enfia no Estado e de parar de distribuir o dinheiro público por amigos, seguramente os trabalhadores serão sensíveis a apelos de solidariedade. O que começa a ser cansativo é ver que são eles que realmente fazem alguma coisa no Estado, que pagam os impostos e que recebem a factura da crise sempre que ela volta. E é bom não esquecer que os aumentos no Estado são o padrão para os aumentos no privado. Sim, é preciso solidariedade. Mas seria bom que por uma vez ela fosse realmente partilhada.