Siga-nos

Perfil

Expresso

Antes pelo contrário

Quem é terrorista?

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Os ingleses chamavam aos independentistas irlandeses de terroristas. Salazar referia-se aos movimentos de libertação africanos como terroristas. Os britânicos diziam que os apoiantes de Gandhi eram terroristas. E também consideravam os sionistas terroristas. Os sionistas consideravam Arafat um terrorista. E também o Hezbollah. E até todos aqueles que criticam o comportamento de Israel na região. A Fatah diz que o Hamas é terrorista. Para o regime sul-africano Mandela era terrorista e até usou vários dos métodos de combate que hoje são claramente considerados habituais para terroristas. Como os sionistas em Israel, por exemplo. Entre outros argumentos, George W. Bush justificou a invasão do Iraque com as supostas relações do regime com terroristas. Os EUA achavam que Kadhafi era amigo de terroristas. Quando se abriu ao mercado internacional deixou de ser. Kadhafi avisa que os que o querem derrubar são terroristas.   

Para os EUA os mujahedin que combatiam no Afeganistão eram libertadores, para os soviéticos eram terroristas. E os mesmos que eram "freedom fighters" no tempo dos soviéticos passaram a ser terroristas no tempo dos americanos. Para a população americana, composta por muitos descendentes de irlandeses, os repúblicanos da Irlanda do Norte são nacionalistas, para os britânicos são terroristas. Para os africanos o MPLA era um movimento patriótico, para o regime português era terrorista. Para todo o Mundo Mandela era um defesor dos direitos cívicos, para os defensores do Apartheid não passava de um terrorista. O Ocidente considera os independentistas curdos do Iraque heróis da democracia e os independentistas curdos da Turquia terroristas.

A palavra terrorista sempre serviu para tudo. Poderia servir para definir um método de guerra: espalhar o terror indiscriminado. Mas se assim fosse, teriamos de incluir na lista o terrorismo de Estado usado em guerras convencionais: em Angola, no Vietname, no Iraque, na Chechénia, em Gaza, no Líbano e em quase todas as outras. Poderia servir para definir aqueles que usam os métodos da guerra assimétrica: a falta de meios é compensada pelo uso de ataques não convencionais. Mas se assim fosse, quase todos os movimentos de guerrilha urbana, onde estão incluidos vários os movimentos que fundaram vários Estados que temos por democráticos - a República da Irlanda ou Israel, por exemplo -, teriam sido terroristas. Até a resistência francesa aos nazis seria terrorista. Ou podemos considerar que terroristas são os que combatem em forças militares não regulares. E aí, praticamente todos os que combatem sem estarem integrados em forças armadas de um Estado são terroristas.

Na verdade, a palavra terrorista não define grande coisa a não ser a simpatia ou antipatia que sentimos por cada movimento armado. Há uma posição coerente, que é a do pacifismo radical: só a não-violência abdica do terror, só ela se opõe de forma clara ao terrorismo. Aquela que reconhece que todas as formas de guerra têm, entre as seus técnicas de combate, o uso do medo e do terror como forma de impor a sua vontade, seja essa vontade justa ou injusta. Claro que daqui não pode resultar o relativismo absoluto: matar milhões de judeus em câmaras de gás não é o mesmo que provocar algumas mortes num bombardeamento; atirar dois aviões contra um edifício no centro de uma cidade não é mesmo que disparar um rocket para o outro lado da fronteira. Em que ponto fica exactamente o terrorismo? Nunca encontrei uma definição neutra . E, desde o 11 de Setembro de 2001, a palavra banalizou-se de tal forma que já não parece corresponder a mais do que uma forma de "terrorismo" verbal (cá está o uso indiscriminado). Foi a partir dela que todos os atropelos aos direitos cívicos e às liberdades individuais e políticas se foram fazendo neste início de século. É a vantagem das palavras brutais com objecto inpreciso. Ela própria ajuda a criar o terror suficiente para o inaceitável poder ser aceite.

O facto de um ditador ex-financiador de movimentos considerados terroristas ter usado a palavra no momento em que a sua queda parece eminente tem uma enorme utilidade: mostrar a inutilidade da própria palavra e criar o hábito de, antes de se colar o rótulo, analisar as motivações e os métodos de cada movimento político sem comprar pacotes completos. E assim concluir que talvez nem todos islamistas sejam terroristas, apesar de serem extremistas, o que já não é grande elogio. Que nem todos os que se opõem aos regimes que apoiamos são terroristas. Que, coisa extraordinária, nem sequer todos os que se opõem à democracia e à liberdade são terroristas. E, acima de tudo, que as listas europeias, americanas ou seja de quem for de organizações terroristas não valem uma pevide. Que aqueles que são terroristas para uns são heróis para outros e que até os terroristas do presente passarão a ser vistos como heróis no futuro pelas mesmíssimas pessoas.

Todos somos antiterroristas. Até os terroristas acham que são. A questão é outra. É saber quanto vale uma vida para quem combate. E aí, meus amigos, suspeito que valha tanto para muitos dos que nos habituámos a chamar de terroristas como para outros que vestem uniformes mais respeitáveis.