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Antes pelo contrário

O Dia do Feriado Nacional

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Duas deputadas querem que os feriados passem a ser apenas folgas. O deputado dos gravadores concorda: o que interessa é o que se comemora, não a data. Tenho melhor ideia: juntam-se os feriados todos num só.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

As duas deputadas católicas (parece que se trata de um estatuto que lhes está reservado) do PS estão preocupadas com a produtividade que se perde nas pontes e nos feriados.

Querem acabar com quatro feriados, o que não me parece mal. Já serem dois civis (há cinco: Restauração, República, 25 de Abril, 1º de Maio e Dia de Portugal) e dois religiosos (há oito, estando entre eles dias tão importantes como o da Imaculada Conceição ou da Assunção de Maria), ficando três civis, seis católicos e um para a ressaca, é que me parece estranho para um país supostamente laico.

E querem acabar com as pontes, o que também me parece excelente e simples de resolver: pura e simplesmente trabalha-se nas supostas pontes, que estão longe de ser um direito. Mas Teresa Venda e Rosário Carneiro têm melhor ideia: colar os feriados ao fim-de-semana. Como bem recordou o deputado Bernardino Soares, ninguém as ouviu preocupadas com a produtividade quando o partido pela qual foram eleitas deu uma inusitada tolerância de ponto durante uma visita de um líder religioso.

Segundo a proposta, o 25 de Abril e o 1º de Maio são quando um homem quiser. Até podiam ficar os dois juntos e ganhava-se um fim-de-semana realmente prolongado. O Natal e o primeiro dia do ano ficariam como estão. Já o dia do trabalhador (ou será o "dia do colaborador"?), data celebrada em todo o Mundo ao mesmo tempo, podia ser num dia qualquer. Ricardo Rodrigues explicou que é mais relevante "celebrar o acontecimento do que celebrar o dia em que teve lugar o acontecimento".

Para atalhar, e seguindo a lógica do deputado dos gravadores, podíamos celebras todos os acontecimentos no mesmo dia. Criava-se o Dia do Feriado Nacional. De manhã, os católicos mais praticantes iam para as procissões, as viúvas visitavam os cemitérios e António Costa discursava na Praça do Município, em Lisboa. À tarde, os trabalhadores subiam a Almirante de Reis, os militares de Abril desciam a Avenida da Liberdade e Cavaco Silva condecorava ex-combatentes. À noite, as famílias trocavam prendas e os foliões abriam garrafas de champanhe.

A ver se nos entendemos: os feriados não têm como principal função as pessoas não trabalharem, mesmo que muitas delas seja apenas isso que fazem. São, supostamente, dias em que os portugueses revêem a sua história e aquilo que faz deles uma comunidade. Retirar aos feriados o seu sentido simbólico - que é a data - é retirar à celebração tudo o que ela tem. Parece estranho às deputadas festejar o Natal no dia 21 ou no dia 27? É natural. A mim parece-me estranho celebrar o 1º de Maio no dia 3 e o 25 de Abril a 23.

Se um feriado é tão insignificante que pode ser celebrado noutra data qualquer, acabe-se com esse feriado - com um verdadeiro equilíbrio entre os civis e os religiosos. Nada de especial a opor. O que não faz sentido é transformar um feriado numa folga colectiva.

Se é para ser assim, tenho uma proposta ainda mais agradável do que a do Dia do Feriado Nacional: os portugueses recebem mais 10 dias de férias por ano e cada um faz com eles o que entender. Deixamos de ter feriados, festas colectivas, datas a celebrar, memória comum, história. Melhor ainda: adoptamos os feriados alemães. Afinal de contas, aquilo lá é que é a sério. Pelo menos é o que tenho ouvido dizer.