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Antes pelo contrário

O bispo Januário, o cardeal Branco e o padre Morais

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Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

O cidadão Januário Torgal Ferreira disse que "há jogos atrás da cortina e corrupção, este governo é profundamente corrupto nestas atitudes a que estamos a assistir". O porta-voz da Conferência Episcopal já veio recordar o óbvio: que o bispo falou em nome individual. Sobre matérias políticas, é assim, apesar de nem sempre assim acontecer, que se espera que os bispos falem: em seu nome. Sendo certo que por serem bispos não deixam de ser cidadãos e não perdem o direito à palavra.

Aguiar Branco, falando como ministro da Defesa - ou seja, em nome do Estado -, respondeu ao bispo. Não se limitou, como fez o ministro da Saúde, Paulo Macedo, a reagir ao seu conteúdo. Isso é o que se espera e nenhum bispo está acima do contraditório. Aguiar Branco preferiu discutir a legitimidade de Januário Torgal Ferreira falar sobre política. Disse o ex-candidato derrotado à liderança do PSD que "o senhor bispo deve obediência às regras da Igreja", que "causa embaraço à Igreja" e que espera "que faça uma opção: ou ser comentador político ou ser bispo das Forças Armadas".

Sem perder tempo com esta ideia de que opinar sobre a vida do País é exclusivo de comentadores, gostava de saber quando é que o senhor Aguiar Branco foi mandatado pela Igreja Católica Apostólica Romana para decidir o que deve ela tolerar ou não aos seus bispos? Para pedir a sua demissão? Para recordar as suas obediências à hierarquia religiosa? Esse mandato é extensível às restantes confissões religiosas? Dura enquanto ele for ministro ou é vitalício?

Por fim, gostaria que o advogado nos informasse qual é o artigo da Constituição que impede os bispos de darem as suas opiniões sobre a vida política? O que disse Aguiar Branco quando os bispos tomaram posição (com todo o direito) numa campanha para um referendo a uma lei (a da despenalização da IVG) em que o ministro participou ativamente? Mandou-os escolher entre o sacerdócio e a intervenção cívica? Não é a alteração de uma lei um tema tão político, ou tão ético, ou tão cívico, como a corrupção? A regra é os bispos dizerem amen às opiniões do senhor Aguiar Branco e só abrirem a boca com a sua devida bênção?

Devo dizer que prefiro, sobre corrupção, incompatibilidades, promiscuidades e tráfico de influências, intervenções mais estruturadas, fundamentadas e com os nomes dados aos bois. como esta (ver vídeo: http://videos.sapo.pt/kzZH4Ua8qCjuDPNQkL9a), de Paulo Morais. Quando escrevo sobre estes temas é assim que o tento fazer: dizer os nomes das pessoas. Claro que quando isto se faz somos acusados de enlamear as pessoas e baixar o nível da política. Mas sou dos que acho que não o fazer é enlamear incertos, fazendo pagar o justo pelo pecador.

Acontece que, ao contrário de Paulo Morais, Torgal Ferreira é um homem sem experiência política. Mas vive neste País e, como a generalidade das pessoas honestas, indigna-se com o clima de saque em que vivemos. E dá voz a isso, dizendo o que a generalidade das pessoas sentem. Pode ser discutível a forma como o faz. Mas não é discutível o seu direito a fazê-lo. O senhor Aguiar Branco gostava que o País ficasse calado, deixando a liberdade de expressão como exclusivo dos comentadores políticos? Aguente-se! Até ver, ainda vivemos em democracia. E também vivemos num Estado laico, onde a Igreja não decide quem é ministro e o governo não decide que é bispo.