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Expresso

Antes pelo contrário

Não vacinar os filhos, uma moda que põe todos em perigo

Daniel Oliveira

Cabe aos pais ou encarregados de educação decidir o que é melhor para os seus filhos e educandos. Cabe à comunidade, através do Estado, defender o superior interesse da criança. Os pais decidem como educam os seus filhos mas os seus filhos não são propriedade sua, com a qual podem fazer tudo o que entendam. Onde está a fronteira em que o Estado deve intervir é sempre uma questão muito complicada. Outra coisa é quando as escolhas que um pai faz não afetam apenas o seu filho, mas os filhos dos outros e, com eles, toda a comunidade. Aí, o Estado tem mesmo obrigação de intervir. Com cuidado, mas seguindo a máxima de que a liberdade de cada um acaba onde começa a dos restantes.

É exatamente esta a questão que se põe com uma moda que faz furor por toda a Europa e EUA e que só agora começa a chegar a Portugal: a de não vacinar os filhos. Incluindo nesta opção as vacinas gratuitas do Plano Nacional de Vacinação. Sendo que muitos dos que fazem esta opção a fazem por convicções políticas ou filosóficas. A moda corresponde a uma certa tendência das sociedades que atingiram um razoável grau de conforto e segurança para ignorarem riscos que lhes parecem pertencer ao passado. É ver o estudo "O Valor das Vacinas e da Vacinação", divulgado há um ano, que revelava que um quinto dos portugueses desvalorizava a vacinação, por considerar que combatem "doenças que já estão a desaparecer" (11% destes acreditam que as vacinas têm mais riscos do que vantagens).

Enquanto, por esse mundo miserável milhões de humanos lutam desesperadamente por não morrer de doenças banais, muitos europeus e norte-americanos surfam numa onda "New Age", feita de mitos e de teorias pseudocientíficas, onde a convicção vale o mesmo que a ciência. Mas não vale. E foi graças à ciência e à generalização das vacinas que ganhámos esta sensação de segurança que, curiosamente, tem ajudado a crescer o estranho movimento antivacinas. Na realidade, este movimento não é exclusivo ocidental. Em 2003, no norte da Nigéria, uns imãs mais radicais decidiram que a vacina contra a polio fazia parte duma conspiração norte-americana para espalhar a SIDA e esterilizar as mulheres islâmicas. A vacina foi proibida e um surto de poliomielite espalhou-se pela Nigéria e países vizinhos.

Dirão que se tratam de fanáticos ignorantes, sempre prontos a embarcar em teorias da conspiração. Na realidade, as teorias não são assim tão diferentes das que se espalham pela Europa. A mais comum é a que garante que há uma relação direta entre a vacina tríplice e o autismo. A acusação, que nasce de um estudo de 1998, do cirurgião Andrew Wakefield, foi várias vezes desacreditada por estudos científicos sérios, tendo até sido considerado uma fraude. Mas se a ciência não convence os imãs da Nigéria também não tem grande efeito nestes movimentos, que explicam todas as provas irrefutáveis contra esta teoria com uma enorme conspiração que junta cientistas, médicos e autoridades públicas de saúde. Muitas destas pessoas até são movidas pela justa e compreensível desconfiança em relação à indústria farmacêutica. Mas confundem, com consequências bem perigosas, causas políticas com teorias científicas. Em sentido inverso, estes movimentos assemelham-se aos negacionistas das alterações climáticas. A ideologia determina a ciência para negar a realidade.

Seja como for, o alarmismo de Wakefield e o ativismo destes movimentos deixou sequelas. Levou a que, por exemplo, muitos britânicos decidissem não vacinar os seus filhos. Resultado? O Reino Unido assistiu a um grande surto de sarampo, entre 2008 e 2009. Nos EUA, onde várias estrelas mediáticas dão a cara pela causa da ignorância, um em cada dez pais adia a vacinação dos filhos ou pura e simplesmente recusa-se a vaciná-los. Em Espanha, só se tinham registado dois casos de sarampo, em 2004. Em 2010 já eram 1300. Por todo o mundo rico, doenças que estavam erradicadas nas últimas décadas começaram subitamente a regressar e a matar. A moda está a atingir tais proporções que o Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças lançou um alerta, em 2011.

É discutível se um pai pode decidir não dar ao seu filho os instrumentos fundamentais para defender a sua saúde. O que não é discutível é se ele pode tirar aos nossos filhos e a nós próprios esses instrumentos. E é disso que se trata. As vacinas são uma proteção coletiva, não individual. Elas garantem uma imunidade de grupo (ou "efeito de rebanho"). Quanto mais pessoas não forem vacinadas, maiores riscos de contração da doença existirão para todos, mesmo para aqueles que são vacinados. Se uma parte substancial da população deixar de se vacinar é toda a comunidade que perde a sua atual imunidade. Quando um pai decide que o seu filho não se vacina está a abrir uma brecha e pôr-nos a todos em perigo.

Por causa deste risco cada vez mais real, o Tribunal Constitucional da Croácia confirmou, esta semana, a obrigatoriedade legal de vacinas contra nove doenças infecto-contagiosas. Compreende-se. Desde que, em 1999, a vacinação passou a ser universal neste País, a difteria, a tosse convulsa e o sarampo desapareceram, a tuberculose diminuiu em 93%, o tétano em 97% e a hepatite B em 65%. Há coisas que não se querem perder.

Continuo a achar que quando retiramos a cada cidadão o direito de fazer o que entende com o seu corpo estamos a mexer no que de mais sagrado há na sua liberdade. Mesmo sendo o corpo dos filhos, tenho muita dificuldade em defender uma vacinação compulsiva. Mas acredito que há passos que podem ser dados. Deixar de exigir apenas o boletim de vacinas na escola pública e passar a condicionar a matrícula à vacinação definida como prioritária. Ou, tendo em conta que o ensino obrigatório não pode ser limitado, fazer depender outros benefícios públicos à existência desta vacinação. Não tenho uma solução clara. Sei que todos temos o direito a viver à parte da sociedade e das suas regras. Mas também sei que se as nossas convicções põem em perigo todos os outros é legitimo que a comunidade, respeitando os direitos humanos, tente reduzir o risco que representamos.

Sobre as mirabolantes teorias em torno das vacinas, recomendo o livro de divulgação científica "Pipocas com Telemóvel e outras histórias de falsa ciência", de Carlos Fiolhais e David Marçal, onde se desconstroem, de forma acessível para todos, vários mitos pseudocientíficos.