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Antes pelo contrário

Madeira: Às ordens da natureza

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Muitas coisas foram mal feitas na Madeira. Umas porque sim, outras porque tinha de ser. Mas é bom recordar que às vezes é mesmo a natureza quem mais ordena.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Claro que a tragédia da Madeira poderia ser menor se não se tivesse esburacado cada canto para fazer túneis que levam estradas a pequenos lugarejos. Claro que podia ser menos mau se não houvesse construção em leito de cheia. Claro que não teria estas proporções se durante tanto tempo não se tivesse desflorestado quase toda a ilha. Claro que se não se tivesse construindo tanto e de forma tão desordenada no subsolo do Funchal talvez as coisas tivessem sido bem menos graves. Claro que um novo Plano Oudinot, como defendem vários peritos, poderia ter minorado os efeitos das chuvadas na capital madeirense.



Mas ainda assim, no fim de tudo, temos de aceitar a inevitabilidade. Quem conheça bem a Madeira sabe que a construção humana, ali, é uma aventura digna de admiração. Sabe que as suas características topográficas e orográficas fazem tudo parecer instável. Em muitos lugares, vive-se literalmente à beira do abismo. Quem conheça a Madeira sabe que a densidade populacional de uma ilha quase sem áreas planas (alguém se oferece para viver no Paúl de Serra?) não ajuda. Que  ela, associada ao relevo, leva à dispersão no território (pelo menos em toda a costa sul), onde há casas e casinhas em todo o lado, mesmo nos lugares aparentemente menos recomendáveis. Que ela contribuiu para desflorestação da ilha. Que os acessos modernos seriam difíceis de garantir sem esventrar a terra e assim criar barreiras à chegada da água ao mar. Que o Funchal cresceu para onde podia crescer.

 

Quem saiba isto tudo saberá que mesmo com todos os cuidados, os que nunca existiram ou os que não podiam existir, a tragédia na Madeira seria inevitável. Talvez com um pouco menos de vítimas, mas era inevitável. Porque nós, os humanos, vivemos em lugares hostis. Em que a natureza nos diz que ali não vai poder ser. E nós insistimos. A Madeira é um desses lugares. Lindos, férteis, mas improváveis para fazer cidades. Como muitos outros no planeta. De vez enquanto a natureza vai lembrar-nos de novo quem manda. Podemos melhorar as coisas. Mas às vezes não podemos mesmo resistir-lhe.