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Antes pelo contrário

Liberal na terra errada

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A revisão constitucional do PSD deixa claros os objectivos de Passos Coelho. Uma agenda liberal num país pobre ou é propaganda de um louco ou programa de um autista. Uma coisa é certa: quanto mais diz ao que vem mais longe estará Passos de lá chegar.

Daniel Oliveira (www.arrastao.org)

Ninguém poderá acusar Passos Coelho de não dizer ao que vem. As primeiras reacções à sua revisão constitucional não podiam ter sido piores. Poucos são os documentos políticos que fizeram um partido descambar nas sondagens. Este fez. E nada teve a ver, como é evidente, com a parte institucional da revisão. As propostas sociais de Passos Coelho acabaram por funcionar como um balão de oxigénio para José Sócrates. Passos percebeu-o e vem garantir que o que quer é salvar o Estado Social. Na educação e na saúde, o objectivo é claro: acabar com a gratuitidade para pôr o Estado a financiar o sector privado, sedento desse mercado com uma procura relativamente rígida e isolado da competição internacional.

Talvez quem conheça Portugal pelos jornais e pelos blogues não tenha dado por isso, mas num país que há tão pouco tempo conhece a democratização do ensino, um Serviço Nacional de Saúde digno desse nome e um projecto de Estado Social o papão do Estado e as maravilhas do privado dizem muito pouco à maioria das pessoas. Num país pobre, só é liberal académico ou funcionário de multinacional. O resto dos portugueses sabe, por experiência própria, que o pouco que tem na sua qualidade de vida deve-o aos serviços públicos universais e gratuitos.

Os nossos serviços de saúde têm problemas? Sim. A escola pública tem de se repensar? Claro. Aqui e em todo o mundo desenvolvido. Mas com todos os seus defeitos isto significou, nos últimos 35 anos, um salto brutal para o País. Basta pensar que nas vésperas da democracia cinco milhões de portugueses não tinham cobertura médica, a mortalidade infantil estava na estratosfera e havia vinte vezes mais analfabetos do que licenciados. Foi o maldito do Estado Social que inverteu estes números.

Conta-se de um maestro que, ao entrar no palco, caiu no fosso da orquestra. E que, para não dar parte fraca e não admitir que se tratara de um acidente, passou o resto do espectáculo a atirar-se para lá. Assim está Passos Coelho com a revisão que em má hora lhe caiu nos braços e deixou tudo demasiado claro. Dado o tiro no pé, não tem, para não parecer cobarde, como não continuar a disparar. Antes assim. Ficam claros os seus intentos. Uma coisa é certa: com este programa autista em relação às preocupações dos portugueses está afastado o cenário da caminhada triunfal para o poder.