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Expresso

Antes pelo contrário

Lá vamos cantando e rindo

Em Aveiro, crianças da escola pública vão, na véspera do dia de Portugal, vestir o traje da Mocidade Portuguesa. É reconfortante viver num País em que o desrespeito pela memória se aprende na escola. 

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Num "belo momento de revisão da nossa história recente" (palavras do director do agrupamento de escolas), muitas crianças vão, amanhã, para comemorar os cem anos da República, vestir a farda da mocidade portuguesa e desfilar nas ruas de Aveiro. A professora responsável por esta bela ideia diz que "nada neste projecto leva para ideias de fascismo". Nada. Tirando a farda, claro.

Os petizes vão cantar o hino nacional assim trajados, sendo certo que não serão obrigados a levantar o bracinho. Uma pena que a "revisão da história" não seja completa. Que bonito seria a cidade que assistiu ao congresso da oposição democrática ouvir os seus rebentos a cantar "Lá vamos cantando e rindo/Levados levados sim /Pela voz do som tremendo /Das tubas, clamor sem fim". Coisa que, ainda assim, se acontecesse, desde que fosse "trabalhado nas escolas com dignidade e muito sentido de responsabilidade", não teria problema algum.

É natural que um País que deixa ao abandono o seu património e que despreza os direitos cívicos, trate mal a sua memória. É natural que um país que desrespeita os que lutaram pela liberdade - lembram-se da pensão oferecida a ex-pides mas recusada a Salgueiro Maia por aquele que veio a ser o nosso Presidente da República? - não leve a mal esta pornografia. Afinal de contas, nenhuma professora se fez fotografar nua na cidade de Aveiro.

Os saudosistas da velha e boa escola podem finalmente sentir o sabor do antigamente. Este País ainda vai entrar nos eixos.