Expresso

Siga-nos

Perfil

Perfil

Antes pelo contrário

Daniel Oliveira (www.arrastao.org)

Fazer como a Irlanda, não era?

  • 333

A OCDE quer que Portugal congele os salários dos funcionários públicos para garantir a moderação salarial. Muitos preferiam cortar. A experiência foi tentada na Irlanda. Está num buraco.

Para além do aumento do IVA, a OCDE propõe o congelamento dos salários da função pública até 2013 com vista a um incentivo para a "moderação salarial" no sector privado. Propõe que o país que tem dos mais baixos salários da Europa e com a segunda maior desigualdade salarial, logo depois da Letónia, seja moderado. Não nos salários mais altos, mas em todos. Quando o salário médio português pouco passa os 800 euros e 40% dos trabalhadores levam para casa menos de 600 euros líquidos gostava de saber como se identificam os excessos salariais como o principal problema nacional.

E dizer que os aumentos salariais não devem estar acima do crescimento da produtividade, só por piada. Nos últimos 30 anos ele esteve, de forma consistente, em linha com crescimento da produtividade. Mas como a desigualdade salarial se tem agravado, os aumentos nos salários mais baixos têm, na realidade, estado abaixo desse crescimento.

Seja como for, sem exportações para fazer, a medida afectará o mercado interno. E isto é a coisa mais perturbante no discurso dominante na Europa sobre esta crise: todas as propostas fazem por ignorar os efeitos de políticas recessivas na economia real. Aquela onde pessoas compram e vendem coisas. A consolidação orçamental e o endividamento é o alfa e ómega de tudo. A economia é tratada como se não existisse. E como se políticas de austeridade não tivessem qualquer efeito nestes dois indicadores.

Uma proposta: como pediam os profetas da terra queimada, olhem para a Irlanda. Aplicou, no último ano e antes de todos os outros, os cortes salariais que se propunham (cinco a quinze por cento nos funcionários públicos) enquanto se entretinha a salvar a banca nacional. Mereceu aplauso geral por tamanha coragem e astúcia. "Tomando estas medidas difíceis mas necessárias, vamos reconstruir a auto-confiança do nosso país internamente e a nossa reputação no exterior", disse em Dezembro o primeiro-ministro irlandês, usando expressões que nos são familiares. Passados oito meses, a Irlanda está, talvez ainda mais do que nós, num buraco sem fundo.

Tudo o que está a acontecer na Europa mostra que este caminho não resulta. Mas como nos repetem, contra todas as evidências, que é por aqui que temos de ir, lá vamos nós sem fazer muitas perguntas rumo ao abismo.