Expresso

Siga-nos

Perfil

Perfil

Antes pelo contrário

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Depois das chamas, as lições gregas

  • 333

No dia da aprovação de mais um pacote de austeridade grego, as ruas de Atenas estiveram a ferro e fogo. Dentro do Parlamento, 199 dos deputados aprovavam um suicídio coletivo. Mesmo com a chantagem, 21 deputados do PASOK e outros 21 da Nova Democracia foram expulsos dos seus grupos parlamentares por se recusarem votar a favor. Cá fora reinava o caos. Não sejam simplistas: não é a rua contra a legitimidade democrática. É o espetáculo da democracia em derrocada. É um parlamento que, passados meses de uma brutal austeridade, já tem muita dificuldade em representar, com o mínimo de fidelidade, os gregos. Os socialistas, desesperados, pedem o adiamento das eleições para 2013.

A sondagem mais recente, quando pouco falta para as eleições, dá-nos dados interessantes: a Nova Democracia, de direita, com 31%; os comunistas, do KKE, com 12,5%; o SYRISA (o Bloco de Esquerda lá do burgo), com 12%; os socialistas, do PASOK, com 8%; o LAOS, a extrema-direita que, até sexta-feira, participava no governo, com 5%; o CHRYSI AVGI, a extrema-direita fora do governo, com 3%. E um novo partido, a Esquerda Democrática, ocupa o segundo lugar, com 18%. É uma cisão "reformista" do SIRYSA que inclui muitos dissidentes do PASOK que se opuseram ao acordo com a troika.

Alguns dados a ter em conta. A direita fica-se com 38%. Os socialistas descem de mais de 45% para 8%. O centrão, até agora absolutamente hegemónico, vale 38%. Comunistas e esquerda radical sobem e conseguem, juntos, mais de 24%. Uma versão mais moderada da oposição de esquerda ao austeritarismo demente consegue, de um só golpe, transformar-se num risco para os partidos que levaram a Grécia para esta tragédia. Juntos, os partidos anti-troika já têm mais de 42%. Felizmente para a democracia grega, o eleitorado ainda não parece querer seguir vias autoritárias para expressar o seu desespero. Por enquanto.

Nas contas económicas dos burocratas irresponsáveis a política nunca entra. E é por isso que estes burocratas são tão perigosos. Já aqui escrevi: a contração económica que se está a tentar obrigar a Grécia a fazer nunca foi experimentada em democracia. Por uma razão: não é possível. Ou será a democracia, por via de uma maioria eleita, a pôr um ponto final nesta loucura e salvar a Grécia de um regresso ao seu triste passado ditatorial ou será a austeridade a matar a democracia.

Outra lição a tirar destas previsões eleitorais: se os socialistas continuarem a ser cúmplices do golpe de estado neoliberal que está a ser imposto em grande parte dos estados europeus terão o destino lógico a que a sua inutilidade política obriga - uma deprimente agonia. Mais um ensinamento interessante: a esquerda que consiga ter a inteligência de vencer o sectarismo e dirigir-se ao eleitorado tradicional dos socialistas pode, sendo uma alternativa ao centrão, dar resposta ao descontentamento. Por fim, a existência de uma esquerda democrática capaz de dar voz à justa indignação popular é o que pode salvar muitos países europeus de uma deriva nacionalista de extrema-direita, onde o desespero, se não tiver para onde se deslocar, acabará.

Com a Grécia, o diretório europeu deveria aprender que está a pôr em risco não apenas a União, o euro e a economia europeia, mas as democracias na Europa. Os socialistas, que a sua cumplicidade com a ditadura da austeridade poderá ser o seu muro de Berlim. Os que estão à sua esquerda, que, se estiverem à altura deste momento histórico, ainda podem ter uma palavra a dizer sobre o futuro dos seus países. Que em Portugal se vão tirando notas.