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Antes pelo contrário

As quadrilheiras da aldeia global

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

O fascínio acrítico pelo progresso é tão idiota como o fascinio acrítico pela tradição. E quando o fascínio pelo progresso assenta num deslumbramento por cada avanço tecnológico ele torna-se especialmente perigoso. Não porque, evidentemente, um qualquer desenvolvimento tecnológico seja por si mesmo negativo. Mas porque ele transporta sempre em si perigos que não foram inscritos nos seus objetivos iniciais.

A Internet e as redes sociais aproximaram as pessoas, dispensaram mediadores, encurtaram a distância e o tempo, abalaram hierarquias, intensificaram a participação democrática, aumentaram a liberdade de expressão, permitiram a transparência e tornaram o acesso à informação virtualmente infinito. Tudo certo. Mas partimos do princípio que tudo isto era positivo. E tudo depende sempre do grau.

A aproximação das pessoas é positiva desde que não se torne sufocante. A expressão "aldeia global", que parecia simpática, pode tornar-se assustadora. Como são as aldeias. Enquanto na cidade nos é permitida a privacidade do anonimato, na aldeia o controlo social pode tornar-se insuportável. E a "aldeia global" está a tornar-se insuportável.

Dispensar mediadores pode parecer agradável. Mas os mediadores seguem, ou podem ser obrigados a seguir, regras. Se os dispensarmos completamente não os dispensamos apenas a eles. Dispensamos um acumular de saberes, de leis, de códigos. E se isso acontece num mundo virtual, sem rostos e nomes, perde-se toda a responsabilidade social.

Encurtar distância e tempo parece ser cómodo. Mas o ser humano tem capacidades limitadas. Domina um determinado espaço, precisa de um determinado tempo. E as suas instituições foram desenhadas para esse espaço e para esse tempo. Se há coisa que as sucessivas crises financeiras em que vivemos nos explicam é isso mesmo: tudo se passa demasiado rápido, tudo se passa em lugar nenhum, onde nenhuma lei e nenhuma ética pode chegar. Exige-se às instituições que criámos uma rapidez e espaço de ação que elas não podem ter. Nem nunca terão.

Derrubar hierarquias parece excelente, sobretudo para alguém com as minhas convicções políticas. Mas as hierarquias não são, nunca foram, o problema. De onde nasce a sua legitimidade é que nos deve preocupar. Sim, devemos ser todos iguais em deveres e direitos. Temos de ter todos as mesmas oportunidades. É nisto que uma pessoa de esquerda acredita. Mas não acredita, não pode acreditar, porque as evidências não o permitem, que temos todos as mesmas capacidades. E que estamos todos igualmente preparados para as mesmas responsabilidades.

Claro que a participação democrática é excelente. Mas se ela não tem rituais, momentos, regras e responsabilização será tão participada como a gritaria de uma multidão.

A liberdade de expressão é um direito de todos. Sem exceção. Mas a indiferenciação e o burburinho onde nenhuma voz se distingue, pode ser livre, mas não chega a ser sequer uma forma de expressão. Desta cacofonia nasce apenas a ignorância e o desespero.

O acesso generalizado ao máximo de informação é excelente. Mas excesso de informação é o mesmo que informação nenhuma. Sabemos hoje muito mais do que sabíamos. Mas não conseguimos fazer sínteses, construir narrativas coerentes, aprender com os erros. Porque é tudo demais, demasiado rápido, demasiado próximo, em demasiada quantidade e uniformemente importante.

A transparência é um valor em regimes democráticos. Mas o excesso de transparência torna a vida em sociedade insuportável. Não há vida em comunidade (nem política, nem negócios, nem família, nem amizade, nem vizinhança) sem segredos, mentiras e hipocrisia. Ninguém quer viver num lugar onde tudo se sabe, tudo se diz, tudo se ouve e tudo se vê.

O que quero dizer com isto tudo? Que a tecnologia trouxe perigos que nos parecem (e também são) vantagens. Nada de novo. Assim foi com a moderna impressão, em que o original e a cópia deixaram de existir, ou com a rádio e a televisão, que nos formatou em gostos e opiniões. O  novo é que, neste caso, a tecnologia trouxe perigos para quase todo o edifício de valores que nos regia e para quase todas as instituições que conhecemos de uma só vez e em apenas duas décadas. Sem que estejamos preparados para tamanha revolução. A democracia nasceu para a cidade. E depois para as Nações. Não nasceu na aldeia e não existe no planeta. Ela nunca existirá na "aldeia global". E ela exige tempo. Não sobrevive a uma avaliação imediata e permanente.

O espírito da rede social infinita e global - temos todos tantos "amigos" -, de uma participação sem responsabilidade que se confunde com democracia participada, seria excelente se tivesse encontrado, no caminho, alguma resistência das instituições do "velho tempo". Se os mediadores das sociedades democráticas tivessem reivindicado o direito ao exercício das suas funções. E, neste momento, estou a pensar especialmente na imprensa. Não foi isso que fizeram. No início, ignoraram. Arrogantes, desvalorizaram o novo mundo que aí vinha. Um burburinho que não merecia a sua atenção. Lixo, apenas. Depois renderam-se. E renderam-se da pior forma: assumiram a derrota e compraram o burburinho e o lixo. Não se limitaram a aproveitar as suas vantagens, que não são poucas. Perdidos, sem saber qual o seu papel, deixaram de mediar.

Tudo isto, por estranho que pareça, vem a propósito de um pequeno anúncio para o qual fui alertado há quase quinze dias. Saiu no caderno "Vidas", do "Correio da Manhã". Dizia isto: "Está numa esplanada e repara que na mesa ao lado se encontra aquela atriz que todos os dias vê na televisão? Passeia na rua e depara-se com um futebolista às compras ou com um ator de quem tanto gosta? Não fique parado. Pegue na sua máquina fotográfica, registe o momento e envie-nos a foto. Oferecemos uma Samsung EC PL70 ao melhor paparazzo. Participe e divirta-se."

Ou seja, um jornal, em vez de valorizar, selecionar e responsabilizar os cidadãos na recolha de informação vai buscar o pior deste novo mundo. Dirão: sim, é verdade, mas a revista em causa, como mediadora, também, ela própria, se dedica ao lixo. E essas revistas sempre existiram. Não desminto. Acontece que se uns milhares de paparazzos são um problema com o qual ainda estamos preparados para lidar, milhões de paparazzos são um pesadelo que nem George Orwell poderia prever. Se o controlo social de uma aldeia pode ser asfixiante, o controlo social de uma aldeia, passado para a escala global, constrói uma sociedade onde nenhum de nós quererá viver. É uma questão de escala. Focos de nojeira controlam-se, a nojeira em todo o lado é insuportável.

Onde quero chegar? Num momento em que tudo é fluído, em que não há tempo, espaço, instituições, regras, responsabilização e rostos (não porque haja um qualquer declínio moral, mas apenas porque há instrumentos que põem em causa a forma como vivemos em sociedade até aqui), quem ocupa os lugares tradicionais de mediação tem de resistir e demarcar-se de todos os que, na sua profissão, contribuem para a morte da sua própria função social.

Escolhendo outro episódio. A Wikileaks teria sido excelente para a defesa da liberdade de informação se os jornalistas tivessem feito o seu trabalho com tanto material: selecionar com critério. Como, em demasiados casos, preferiram o vouyerismo (saber o que fulano disse sobre beltrano), perderam a oportunidade de se legitimarem como mediadores aos olhos dos cidadãos. Assim como, quando um jornal pede aos cidadãos para violarem a privacidade dos "famosos", lhes explica que a única diferença entre um órgão de comunicação social e um blogue anónimo é que se tem de pagar para ler um enquanto o outro é de borla. Se nos jornais ainda há que ache que pode participar na barulheira indiferenciada, é bom que saiba que para isso nem quem gosta de lixo precisa deles. E que se prepare para fechar a loja.