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Antes pelo contrário

Aproveitar a boleia da crise

A Irlanda desregulamentou os mercados de capitais e o mercado de trabalho. Ao primeiro sopro desabou e o desemprego disparou. Salvou a banca e ficou com um défice de 32 por cento. Quem é que a UE e o FMI vai pôr a pagar? Os do costume.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

A Irlanda era um exemplo: desregulou os mercados de capitais, dedicou-se ao dumping fiscal, com um IRC irrisório e desregulou o mercado de trabalho. Atraiu assim os capitais estrangeiros e alimentou uma bolha imobiliária. O problema é que os mercados têm humores. E assim como vieram, foram embora aos primeiros sopros da crise. Com tão generoso tratamento, um quarto do PIB irlandês não contribuiu com um euro para o rendimento nacional e as receitas fiscais sentiram-no bem. Ainda antes de vir a nacionalização da banca falida, já a crise batia à porta: o PIB caiu 3,5 por cento em 2008 e 7,6 por cento em 2009.

A promessa de que um mercado de trabalho flexível também não se confirmou: 4,6 por cento de desemprego em 2007, 6,3 por cento em 2008, 11,9 por cento em 2009 e 13,7 em 2010. Um aborrecimento quando as certezas ideológicas não são confirmadas pelos factos.

Depois sabe-se o que aconteceu. A exposição da banca irlandesa ao exterior levou à falência do primeiro banco. O Estado correu em seu socorro e isso custou nem mais nem menos do que 17 por cento do PIB. Quando a certeza de mais duas nacionalizações que custarão 35 mil milhões de euros surgiram a União Europeia obrigou a Irlanda, que só precisava de ir aos mercados da dívida em Abril de 2011, a pedir ajuda (à "generosa" taxa de mais de cinco por cento) ao fundo europeu e ao FMI.

Com o dinheiro viram imposições: mais flexibilização do mercado de trabalho (que tão bons resultados demonstrou), diminuição do salário mínimo, diminuição em dez por cento dos salários dos funcionários públicos (que já tinham sido reduzidos em dez por cento) e diminuição do subsidio de desemprego.

Vamos repetir para quem já se esqueceu: tudo isto está a acontecer à Irlanda para salvar a banca. Onde se vai buscar o dinheiro? Aos recursos públicos, às prestações sociais e aos salários dos irlandeses. São eles que vão pagar a factura das aventuras de uma banca falida.

Impõe a Europa novas regras para o sistema financeira? Quis regulamentar os mercados de capitais? Conseguiu impor impostos que não apostem numa concorrência fiscal incomportável para os países europeus? Nada disso. As causas da crise irlandesa foram rapidamente esquecidas. Uma boa oportunidade para atacar direitos laborais e destruir o Estado Social não se pode desperdiçar. Mesmo que uns e outro nada tenham a ver com o que aconteceu.

Para Portugal, a Europa já tem a mesma receita: flexibilizar as leis laborais. O que tem isso a ver com o endividamento externo de Portugal? Nada. Mas quem ainda não percebeu que a crise causada pelo laxismo dos Estados face às aventuras dos grupos financeiros será usada para dar a última machadada no modelo social europeu não percebeu nada do que estamos a viver.