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Antes pelo contrário

Anatomia de um assalto (V): as responsabilidades dos cidadãos

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Não vale a pena ficar à espera de salvadores. Nem queixarmo-nos da classe política que temos. Não escolhemos advogados, juízes, polícias, professores, engenheiros, economistas. Mas escolhemos os políticos. Eles são o reflexo da nossa exigência ou da falta dela. E o problema não está no sistema eleitoral. Países com sistemas semelhantes têm melhores eleitos. Até porque o problema não se resume à escolha. Os políticos reagem aos impulsos que recebem dos cidadãos. Se são eleitos por serem simpáticos e prejudicados por serem frios é nisso que se concentram quando comunicam com eleitores que ignoram o conteúdo do que dizem. Se os cidadãos não leem jornais e não se informam, os políticos habituam-se a mentir-lhes. Se a corrupção é tolerada e os corruptos reeleitos, os corruptos vão tratando de afastar os honestos. Se os cidadãos acham "que os políticos são todos iguais" as pessoas mais sérias e capazes recusam-se a viver com tão degradante imagem e os patifes safam-se perante a suspeita geral. Cidadãos pouco exigentes contribuem, por ação ou omissão, para a degradação da vida democrática.

Mas estar informado não é apenas ler jornais ou ver televisão. Grande parte da informação que recebemos na vida vem da nossa experiência. E experimentar a democracia é participar nela. Se a maioria dos cidadãos vive alheada da participação cívica e acredita que o seu único papel é trabalhar, pagar impostos e, de quatro em quatro anos, votar, é natural que seja facilmente enganada no momento do voto. A fraca qualidade intelectual, técnica e ética da nossa elite política não é a causa dos nossos problemas. É a consequência. A consequência de uma cidadania anémica.

Odeio que se diga que esta crise é uma oportunidade. A miséria nunca é uma oportunidade. É um desperdício de oportunidades. Mas, no meio de todas as tragédias, aprendem-se algumas coisas. E, estando em causa a nossa vida de forma tão dramática, podemos aprender a envolvermo-nos na democracia. Perder horas das nossas vidas em reuniões de associações, movimentos, colectividades, sindicatos, comissões de moradores ou de trabalhadores, partidos, seja lá o que for, sem qualquer proveito individual, exige de nós muita paciência. O Facebook é mais fácil. Mas só isso garante a existência daquilo a que comummente chamamos de sociedade civil. Sem ela, a política institucional vive isolada daqueles que devia representar.

O sobressalto cívico é um primeiro sinal de saúde democrática. E as manifestações de amanhã, por todo o País, que se imaginam de enormes dimensões, são um suspiro de alívio para quem temia que este país estivesse definitivamente anestesiado. Mas só valem a pena se forem um começo. Não podemos exigir aos políticos que apresentem alternativas e deixarmo-nos de fora dessa tarefa. Um cidadão, numa democracia, não é um cliente do Estado. Nem tem de comer e calar, nem tem sempre razão. E há, na indignação de muitas pessoas, uma autocomiseração que me incomoda. Como se fossemos todos vítimas de um destino que não determinamos. Como cidadão, não espero que surja um político iluminado que me mostre o caminho para a salvação. Quero participar nesse debate e nas escolhas que dele surgirem. Porque este País também é meu.

Envolvi-me, recentemente, na organização de um encontro para debater alternativas. A convocatória do Congresso Democrático das Alternativas (http://www.congressoalternativas.org/), que milhares de pessoas já assinaram (muitas centenas nos últimos dias), parte de uma posição clara de rejeição dos pressupostos do memorando da troika. Porque nenhum debate sério se faz sem um ponto de partida claro. Mas não quer ficar por aí. Quer saber o que fazer para fazer diferente.

Junta pessoas muito diferentes. Gente "anónima" ou mais mediática. Com partido ou, na maioria dos casos, nem por isso. A variedade política, social, profissional e geográfica das pessoas que se envolveram nisto é inédita. Difícil, claro está. Alguns não se apreciarão e habituaram-se a estar em campos diferentes. E a tolerância democrática é fácil de apregoar em discursos e muito difícil de praticar. Mas a coisa está a fazer o seu caminho. Porque move estes milhares de cidadãos duas ideias. A primeira: só é possível derrotar a austeridade com propostas alternativas credíveis. A segunda: a convergência dos que se opõem à austeridade não se faz com apelos, faz-se com a demonstração prática de que há mais coisas que os unem do que as que os separam. E essa demonstração forja-se através de propostas concretas. Propostas que não são apenas pensadas por académicos e técnicos nos seus gabinetes ou por políticos e militantes partidários em reuniões do partido. São pensadas com eles - técnicos e políticos -, em conjunto com os cidadãos. Porque esta é a democracia em que quero viver. Que não despreza o conhecimento especializado e a vida política institucional, num populismo fácil e inútil. Mas que sabe que isso não chega e que é na confluência da cidadania, do conhecimento e da construção de alternativas de poder que podem nascer as soluções mais sólidas.

Dou este exemplo mas poderia dar milhares de outros. Pequenos ou grandes nas suas dimensões, ambiciosos ou humildes nos seus propósitos, locais ou nacionais na sua abrangência, temáticos ou generalistas no seu objecto. Tanto faz. É o nosso futuro, bem concreto, que está em causa. Em vez de nos queixarmos da política, está na altura de a fazermos. Há política para além dos partidos. Para os que o têm ou para quem, na sua vida cívica, os dispensa.

Este é o último de cinco textos sobre o tema.