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Expresso

Antes pelo contrário

A silly season e o piropo na coutada do macho ibérico

Na Universidade de Verão do Bloco de Esquerda houve um debate sobre o "assédio verbal" ou o "piropo". O piropo feito a mulheres desconhecidas, na rua. Mulheres sozinhas, porque ninguém manda piropos a mulheres acompanhadas, que não se ofende a virilidade do macho a que "pertencem", esse sim, merecedor de respeito. No mínimo dos mínimos, é uma forma pouco educada e abusiva de lidar com o sexo oposto. É isto que todas as pessoas civilizadas que conheço acham.

O facto do assunto ser ou não ser uma prioridade interessa-me pouco. Se só debatêssemos o que é prioritário os debates públicos seriam monotemáticos. Mesmo a nossa crise económica dificilmente seria tema quando comparada com as centenas de mortes na Síria ou no Egito. A questão é, quanto muito, outra: se é uma prioridade para um partido político. Se, tendo dignidade para ser discutido, a tem para ser discutido na universidade de Verão de um partido político. Concedo que não.

Mas incomoda-me a caricatura. Nem esse foi, ao que sei, o assunto central na reentré do Bloco de Esquerda, nem, ao contrário do que escreveram, sem qualquer rigor, vários jornalistas e opinadores, o referido partido apresentou qualquer projeto de lei sobre o tema. Se o fizesse, seria um disparate. Porque aquilo que a sociedade consegue gerir por ela própria, através da mudança de mentalidades, deve dispensar legislação. Legislar sobre tudo é retirar à sociedade a capacidade de se autoregular e, assim, crescer. Sendo que isto é uma questão de grau, não uma questão de princípio.

Se comentários sobre a raça ou a orientação sexual de alguém já começam a ser pouco aceites, sem que isso tenha qualquer relação com a legislação em vigor, os comentários a mulheres desconhecidas são não apenas tolerados, como assunto de galhofa. Está a mudar? Está. Por causa de alguma lei? Não. Porque as nossas sociedades já são mais igualitárias, as mulheres menos tolerantes com os abusos e um homem que se dirija a uma desconhecida de forma abusiva arrisca-se a levar uma merecidíssima lambada com aplauso da assistência.

O dito "piropo" foi assunto de discussão numa sala de Lisboa, às 10h30 da manhã, lançado por feministas que consideram que o tema diz qualquer coisa sobre a forma como as mulheres são tratadas na sociedade portuguesa. O tema tira-me o sono? Não. É inventado e não tem qualquer relação com a realidade? Também não. Tem relevância política? Não me parece. Merece a caricatura que dele foi feita? Definitivamente, não. Ela diz mais de quem, em agosto, à falta de assunto, a faz do que do tema. Porque a caricatura não é dirigida ao Bloco ou ao incómodo com o piropo. É a qualquer debate que ponha em causa os termos em que os homens se relacionam com a mulheres no quotidiano. E que trata com uma curiosa bonomia os abusos que nenhum homem toleraria à sua filha ou à sua mulher. Porque são "suas". E, na relação com as mulheres, muitos só continuam a compreender a linguagem da propriedade.

Resumindo: o piropo de rua a mulher desconhecida é coisa de alarves. Não é tema político e muito menos jurídico. Mas a reação que muitos tiveram a uma simples discussão sobre o assunto (ao ponto de inventar propostas de lei onde elas não existem) é bastante reveladora. Afinal de contas, como escreveram os orgulhosos juízes do Supremo Tribunal de Justiça, estamos na "coutada do macho ibérico".