Siga-nos

Perfil

Expresso

Antes pelo contrário

A ignorância atrevida

Os técnicos disseram o que ia acontecer na Madeira quando a chuva desabasse. Ninguém quis saber. Os técnicos avisam o que vai acontecer em Lisboa quando vier o terramoto. Ninguém quer saber.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Usando os nossos impostos, o Estado português investiu, nas três últimas décadas, muito dinheiro nas nossas universidades. Formou técnicos e especialistas. Para depois os ignorar.

Há dois anos a RTP fez uma reportagem sobre os riscos da falta de planeamento na Madeira e os efeitos que ela teria quando chovesse a sério, coisa que, tendo em conta o clima na ilha, era previsível que viesse a acontecer. Ninguém quis saber.

Podem ver aqui:

 

Não é coisa madeirense.

Há décadas que técnicos e especialistas alertam para a necessidade de mudar muita coisa em Lisboa, preparando a cidade para um terramoto que há de vir (vale a pena olhar para o Chile nestes dias). Ninguém liga nenhuma.

Por todo o país ambientalistas exigem mais rigor da administração pública nas obras do Estado e nas obras que se vão licenciando. Ninguém quer saber. Os ambientalistas são picuinhas, uns tarados que comem fruta orgânica e salvam baleias, é o que se pensa.

Tornou-se moderno, provocador e interessante desprezar o conhecimento técnico. Por todo o mundo, opinadores sem qualquer formação na matéria dedicam-se a fazer humor com as certezas cientificas sobre as alterações climáticas. Chega a escrever-se - a ignorância atrevida dá audiências - que o frio deste Inverno é a prova do erro de quem usa indicadores objectivos e testados para dizer o que diz. No mundo mediático, a leviandade e a ligeireza são equiparadas à ciência.

Os avisos daqueles técnicos que ouvimos na RTP, e que as autoridades madeirenses também ouviram vezes sem conta, foram ignorados por três razões: porque os responsáveis políticos pensam apenas no dia seguinte, porque os interesses económicos imediatos são sempre prioritários e porque a vivemos numa sociedade subdesenvolvida que despreza a prevenção. Investimos no conhecimento, mas falta-nos uma cidadania exigente e informada.

E mesmo depois da catástrofe, a maioria das vozes não hesita em resumir os acontecimentos assim: foi a chuva. Choveu, é verdade. Há coisas que não se evitam. Mas quando uma catástrofe natural se abate sobre os humanos devemos ter as duas coisas em conta: a catástrofe, que não podemos impedir, e a forma como os humanos se defendem dela, que só depende de nós.

Quando vier o tal terramoto em Lisboa também será o terramoto a matar e destruir. Também se dirá que a culpa é da natureza. Mas é o que fizermos agora que determinará a dimensão da tragédia. Se ouvirmos quem anda há anos a falar para as paredes talvez se salvem muitas vidas. E essa é a responsabilidade de quem elegemos. Se exigirmos que façam qualquer coisa, provavelmente farão. Se continuarmos a desprezar aqueles que andámos a formar para identificar o perigo e encontrar soluções, os políticos insistirão no caminho mais fácil: deixar andar e no fim contar os mortos e os prejuízos.