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“Prós e Contras”: a ciência não é democrática

A nobre ideia democrática de que todos têm direito a ter uma opinião e a vê-la livremente expressa no espaço público transformou-se noutra coisa: a de que tudo o que é dito no espaço público tem o mesmo valor. Mas a ciência não é democrática. Porque nem a crença da maioria numa mentira faz dela uma verdade

Ontem, no “Prós e Contras” da RTP, um senhor que se diz “terapeuta de biomagnetismo” (seja lá o que isso for) foi apresentado como “doutor” e perorou, com base nos seus “estudos” de bulas e na Internet, sobre os riscos das vacinas. Dispensado de qualquer rigor científico, que a sua atividade comercial não exige, foi debitando “estudos” e “factos” sem temer o risco das consequências para a sua credibilidade. Porque ele não depende dela. Do outro lado, médicos e cientistas eram obrigados a argumentar num terreno impossível: a ciência contra a opinião.

Dizia a dada altura Fátima Campos Ferreira: “cabe aos cientistas convencer a sociedade...” Como é que um cientista convence a sociedade sem ser com argumentos científicos? E como se usam argumentos científicos perante uma plateia que não domina a ciência? Eu digo como: a ciência está dotada de instrumentos de escrutínio que permitem corrigir-se a si mesma. Coisa que a pseudociência não tem de fazer. Não precisa de prova, de controlo dos pares. Basta-lhe as redes sociais e a ignorância de quem os lê. Por isso mesmo podemos, com todos os erros, ir confiando no trabalho de cientistas e não temos nenhuma razão para confiar no que nos dizem os curiosos. Não porque a ciência seja infalível, mas porque a ciência tem os instrumentos para ir corrigindo as falhas. Isto não isenta os cientistas de fazer um bom trabalho de divulgação e pedagogia e há vários que se dedicam a isso. Mas se o objetivo é “convencer” uma sociedade que decidiu recuar uns séculos, e em vez de querer formação e informação exige ser convencida da validade da ciência, estarão derrotados à partida.

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