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O episódio italiano da crise democrática

É quem dirigir a zanga popular que liderará o confronto com um poder rendido à inevitabilidade do esvaziamento das democracias, do crescimento da desigualdade e da desregulação da economia em nome de uma globalização de que apenas uma minoria de europeus e norte-americanos está a beneficiar. O Partido Democrático italiano juntou-se ao enorme clube dos social-democratas mortos. Quantos mais serão precisos para acordarem?

Tudo o que podia ter baralhado as coisas baralhou. A coligação que junta a direita italiana conseguiu 37%, mas, dentro dela, a liderança não é do partido de Berlusconi, que a Europa finge desprezar mas a quem sempre fez todas as vontades. Ficou-se pelos 14%, enquanto a extrema-direita da Liga Norte teve quase com 18%. Mas o grande vencedor foi mesmo o Movimento 5 Estrelas, um movimento de protesto em forma de coisa nenhuma, com 32%. O enorme crescimento do M5S deveu-se, entre outras coisas, a uma maior moderação na retórica do seu novo líder, Luigi Di Maio. E o derrotado foi, como começa a ser um clássico, o centro-esquerda. A coligação de esquerda teve 23%, ficando o Partido Democrático com apenas com 19%. Nem sequer a aliança entre os farrapos europeístas – Força Itália e Partido Democrático – é possível. Começa a ser cada vez mais difícil remendar uma Europa que já tem mais buraco do que tecido. Deixo a análise fina do que aconteceu em Itália para os muitos textos interessantes que foram escritos sobre o assunto. Num artigo menos circunstancial prefiro tratar do quadro em que este resultado se integra, até porque o padrão é tão óbvio que as análises se podem começar a tornar redundantes.

Ganhemos um pouco de perspetiva e tentemos encontrar qualquer coisa que una o caos. A lista de causas que costuma ser oferecida para explicar estes resultados é simples: crise da União Europeia, refugiados a chegar em massa, um confronto entre velhos que resistem à globalização e jovens que a abraçam e a indignação dos que mais sofreram com a última crise financeira. Depois, olhamos mais de perto e as coisas são menos claras do que parecem. O Brexit teve a sua votação mais alta nas zonas rurais, onde não há imigrantes, e a mais baixa em Londres, carregada deles. E se os mais velhos votaram mais no Brexit, foram os mais novos que votaram mais em Le Pen. E se são os operários de zonas deprimidas que votaram mais no Brexit e em Le Pen, foi a classe média que votou AfD. E não é a revolta contra os refugiados que explica o voto no Movimento 5 Estrelas, verdadeiro vitorioso das eleições italianas. Talvez o problema seja estarmos a olhar, mesmo quando falamos da Europa, demasiado perto.

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