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A lição do abutre

Aqueles que nos bairros mais pobres chegam, pelo seu talento, contra todas as probabilidades e sem passarem por cima dos direitos dos outros, onde chegou Gelson é que podem explicar a Octávio Ribeiro que não é preciso viver como um abutre para conseguir voar mais alto

Não preciso de explicar que Gelson Martins, num gesto de solidariedade para com um amigo – Ruben Semedo, preso em Espanha –, festejou o golo contra o Moreirense exibindo uma t-shirt onde se podia ler “cu bo ti fim de mundo, RS35” (“Contigo até ao fim do mundo”, em crioulo). Que, seguindo as regras, o árbitro foi obrigado a exibir-lhe um cartão amarelo. Como Gelson já tinha um, isso impediu-o de jogar no Porto-Sporting desta semana. Este não é o lugar para analisar o recurso do Sporting e o facto deste não ter tido efeitos suspensivos. Só escrevo sobre o assunto por causa de um artigo publicado no “Record” por Octávio Ribeiro, essa figura primeira e exemplar na defesa ética pública.

O diretor do “Correio da Manhã” critica o Sporting por não ter aproveitado este momento para dar uma lição de ética a Gelson. Até aqui, limito-me a discordar. Considero que o gesto de solidariedade do jogador, sendo insensato e tendo efeitos negativos para ele e para o clube, revela falta de ponderação mas nobreza de carácter. A lição, a existir, é de pragmatismo. E ficar-me-ia por aqui. O problema é que o diretor do tabloide decidiu fazer sociologia instantânea, transformando Gelson Martins em exemplo da ausência de valores que grassa nos “bairros pobres, onde a polícia quase não entra e a escola não vai”. Nos bairros onde “safam-se os miúdos com jeito para a bola” e de onde “escapam os que preferem a via-rápida do crime”. Se vir um adulto que venha daqueles bairros e a quem a vida correu bem já sabe: ou é jogador da bola, ou é bandido. E para o caso de pensarmos que Octávio Ribeiro está a falar de todos os miúdos que vivem nos bairros da periferia, ele explica: “Não é a raça que faz um jovem pensar e agir de forma desconexa, é a pobreza de valores”. A etnia de Gelson é, portanto, um tema neste caso.

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