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O jornalismo não é equidistante entre a verdade e a mentira

O facto de haver jornalistas com dificuldade em explicitar que quem não vacina os filhos nega uma evidência científica, tratando-os como uma parte numa disputa inexistente, corresponde apenas uma coisa: há jornalistas que têm medo de irritar a ignorância. O que quer dizer que têm medo da verdade. Não, o jornalismo não é equidistante

José Vítor Malheiros escreveu no seu Facebook um excelente texto sobre a doença infantil do jornalismo: a equidistância. A equidistância, explica, é a forma defensiva e barata de simular independência. A independência depende do sentido crítico, da liberdade em relação a interesses particulares e do rigor no método de trabalho. Mas não dispensa os jornalistas de procurar a verdade. Os factos. Nem cada assunto tem apenas dois lados – pode ter muitos mais –, nem a verdade deixa de existir por isso. Nuns casos, haverá versões dessa verdade, baseadas em factos com diferentes leituras. Noutros não. Mesmo nas ciências chamadas exatas, há disputas importantes. Não quer dizer que a verdade não exista, quer apenas dizer que as pessoas mais bem preparadas no estudo daquele assunto não chegaram, com base em factos, a conclusões satisfatórias. Mais: há erros na ciência. A vantagem é que o método científico, ao contrário da mera disputa de opiniões, permite que sejam corrigidos e se vá evoluindo. Nada disto permite que as evidências científicas estejam é pé de igualdade com opiniões sem qualquer fundamento.

A equidistância é a forma defensiva e barata de simular a independência porque ela substitui a busca dos factos pelo tempo de antena às várias versões de uma suposta verdade. Cada um conta a sua história e está feito. O jornalista não tem de fazer o seu trabalho – relatar factos e aproximar-se da verdade – e ninguém o pode acusar de ser tendencioso. Mas isto é uma perversão do que é o jornalismo. Porque faz com que tudo se equivalha: a verdade e a mentira, os factos e as falsidades, a ciência e a crendice. Como temos visto nos EUA (e não só), os efeitos civilizacionais desta postura são tremendos.

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