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“São Jorge”, os restos da desgraça

Se àqueles a quem nada falta a cupidez levou ao desvario ético, como se viu com os banqueiros que originaram esta crise, não é fácil exigir rigor a quem nada tem. “São Jorge” é sobre o subsolo da pobreza que respeitamos. É sobre os últimos na cadeia alimentar

“Isto aconteceu ou é tudo ficção?” A pergunta foi várias vezes feita ao realizador Marco Martins, em festivais internacionais em que “São Jorge” foi exibido. A forma como Portugal lidou com a crise é muito semelhante à forma como os portugueses lidam com a pobreza. Para fora, fomos o aluno bem comportado que lá se ia aguentando. Não éramos a Grécia, éramos uma história de sucesso. A arte, e em particular o cinema, contribuiu para a mentira, passando ao lado daqueles terríveis cinco anos que ainda não foram, na realidade, ultrapassados.

“São Jorge”, rodado durante a crise, é uma das poucas exceções. Num estilo bem diferente, “As Mil e Uma Noites”, de Miguel Gomes, é outra. Apesar do fascínio estético pela miséria (que não me agrada especialmente), o filme é tão opressivo como a realidade que se viveu nos últimos anos. Mas o fascínio estético não romanceia a pobreza. Os diálogos caseiros dos atores amadores, não encenados, sobre o Rendimento Social de Inserção ou os ciganos deixam bem claro que é nos bairros sociais que o discurso contra os outros pobres é mais agressivo.

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