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Dijsselbloem é um europeu médio do norte

Foram os líderes europeus, e não a extrema-direita, que construíram o argumentário demagógico contra a razão de ser da União. Assim como deram, com o insulto e humilhação permanente, a que juntaram doses cavalares de sacrifícios, força à esquerda antieuropeísta nos países do sul. Como podem existir condições políticas para qualquer tipo de solidariedade europeia, de que a União dependeria para sobreviver, se os principais dirigentes europeus convencem os seus povos que as transferências de recursos para garantir a convergência correspondem a dar dinheiro a quem o vai torrar sem qualquer critério? Claro que Dijsselbloem tem de ser corrido por ter insultado vários povos ao mesmo tempo e, já agora, por ter sido escorraçado do poder pelos seus concidadãos. O que não serve para os holandeses não serve para os europeus. Mas não se julgue que isso muda alguma coisa. O que Dijsselbloem disse é que o europeu médio do norte pensa. Não apenas por preconceito xenófobo, mas porque foi isso que gente considerada moderada e europeísta lhes andou a vender nos últimos seis anos. Foram eles e não quaisquer radicais que mataram a União

As declarações de Jeroen Dijsselbloem não me ofendem. Porque elas só são novidade no estilo carroceiro. A redução desta crise a um discurso supostamente moralista, com contornos xenófobos, é a marca de todo o discurso dominante em Bruxelas. Estas declarações não nos esclarecem muito sobre a forma como os principais responsáveis europeus viram a crise. Eles conhecem melhor do que ninguém todas as fragilidades da absurda arquitetura do euro. Eles sabem como a crise financeira global apanhou a Europa sem mecanismos de defesa. Eles sabem como as primeiras vítimas foram as economias periféricas, os elementos mais expostos da zona euro. O que esta frase revela é o estado do discurso político no norte da Europa. E ajuda a explicar tudo o resto. Incluindo a total ausência de condições políticas para mudar a União para melhor.

O centro-direita e o centro-esquerda dos países europeus mais ricos construíram um discurso político sobre os países do sul. Um discurso que explicava, de forma simples e facilmente assimilável, as razões para o falhanço da zona euro ao primeiro embate financeiro, ainda nem uma década tinha passado do nascimento da moeda única. E o discurso batia certo com o preconceito popular: os povos do sul são desorganizados, gastam mais do que têm, são parasitas, irresponsáveis, corruptos. O discurso xenófobo é de tal forma eficaz que até houve, nos países visados pela ofensa, quem os assumisse como verdadeiros. Até houve políticos que usaram o preconceito para impor o seu programa ideológico, alimentando a falta de amor próprio dos povos que deviam liderar. Nesta matéria, Portugal foi o exemplo mais radical. De tal forma, que a condescendência levou um responsável da troika a dizer que éramos um povo que não dava problemas, “um povo bom”.

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