Siga-nos

Perfil

Expresso

A direita absorveu o discurso extremista, o centro-esquerda pasokizou-se e a Europa suspira de alívio

Mark Rutte (VVD), que perdeu 8 lugares, importou grande parte do discurso de Wilders, sendo, em alguns temas fundamentais que marcam a fronteira entre a direita civilizada e a extrema-direita, difícil distingui-los. O alívio com o resultado de Wilders parece ter obscurecido um dos dados mais impressionantes: o resultado do Partido do Trabalho (PvdA), de Jeroen Dijsselbloem. Ele é especialmente relevante porque confirma um padrão europeu: a pasokização de vários partidos socialistas e trabalhistas. O PvdA, que participou num governo de austeridade que decretou o fim do Estado Social, passa de 38 para 9 deputados, ficando abaixo dos partidos à sua esquerda. Recordo que a integração dos imigrantes e os refugiados é apenas a nona preocupação dos eleitores dos principais partidos holandeses. Antes dela está, por esta ordem, a manutenção do sistema de saúde, a segurança social, a luta contra o terrorismo, o dinheiro para educação. É por isso estranho que Augusto Santos Silva se venha congratular com os resultados, falando do ano da derrota do populismo, quando, apesar do alívio por Wilders não ter chegado ao topo, temos a direita tradicional a absorver parte do seu discurso e o centro-esquerda a eclipsar-se da vida política holandesa. É bem diferente da imagem de normalidade e continuidade que se está a tentar passar

A Europa suspirou de alívio. O PVV, partido de extrema-direita de Geert Wilders (desculpem se não uso a palavra “populismo”, que hoje serve para meter tudo e o seu contrário no mesmo saco), passou a ser a segunda força nacional e ganhou cinco deputados (passou de 15 para 20), mas não ficou em primeiro. De uma ou de outra forma, todos pensam que não participaria no governo. Mas uma vitória de Wilders teria um efeito simbólico muito relevante, sobretudo quando sabemos que a extrema-direita espreita em França e na Alemanha. Ainda assim, exigir de Wilders uma assunção de derrota é talvez um pouco excessivo. Muito menos quando vem de forças que, ao contrário dele, perderam força política.

Se ouvirmos com atenção o discurso de campanha, a derrota da extrema-direita é parcial. Acontece na Holanda o que está a acontecer em muitos países europeus: os partidos do centro-direita incorporam parte do discurso dos extremistas. Mark Rutte (VVD), que perdeu 8 lugares mas manteve a liderança, importou grande parte do discurso de Wilders, sendo, em alguns temas fundamentais que marcam a fronteira entre a direita civilizada e a extrema-direita, difícil distingui-los. Mas se for europeísta – a saída na UE não é, de facto, uma questão para os holandeses – tudo parece deixar de ser um problema para os observadores europeus.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)

  • Holanda recusa populismo de Wilders

    O liberal conservador Mark Rutte deverá continuar como primeiro-ministro. Apesar de castigado nas urnas esta quarta-feira, venceu as legislativas com distância. Para trás ficou o populista xenófobo Geert Wilders. Abre-se, agora, um período de conversações para formar um Governo que pode incluir quatro ou mais partidos, mas não a extrema-direita de Wilders

  • Mark Rutte vai ter de fazer uma coligação a quatro ou cinco partidos

    O comentador Nuno Rogeiro não tem dúvidas de que para formar Governo o primeiro-ministro holandês Mark Rutte vai ter que fazer uma coligação com vários partidos. Uma decisão que pode fortalecer o candidato de extrema-direita Geert Wielders, com quem Rutte já avisou não querer acordos