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Quebrar o ciclo vicioso que desprestigia os professores

Se adotássemos o excelente sistema finlandês o resultado poderia ser catastrófico. Não por razões culturais, mas porque não há bom sistema que resista a uma máquina burocrática centralizadora e à desmotivação ou falta de vocação de professores. Quanto à primeira, defendo uma crescente autonomia das escolas. Mas é em relação aos professores que a mudança é mais urgente. A solução não é avaliar de forma severa quem está a dar aulas. Isso é trancar a porta quando a casa já foi roubada. É na entrada que tudo se decide. Na Finlândia, é mais difícil entrar na formação de professores do ensino básico do que em Medicina ou Direito. É uma pescadinha de rabo na boca. Como é difícil chegar a professor só os melhores conseguem e a profissão ganha estatuto social. A sociedade confia nos professores e eles ganham autonomia, tornando a profissão atrativa e levando os melhores a querem ser professores, o que torna a seleção mais apertada. Em Portugal, temos de quebrar outro ciclo vicioso: o desprestígio da profissão cria desalento e torna a docência pouco atrativa, levando a sociedade a não confiar nos professores e a burocracia a tutelar a sua atividade, o que leva os melhores a quererem outro rumo

Quando a polémica em torno da avaliação dos professores atingiu o seu auge, paralisando todas as reformas (várias delas boas) que Maria de Lurdes Rodrigues defendia para a escola, disse, a muitas pessoas, uma coisa que aparentemente as chocava: se tivesse de fazer uma lista de prioridades para a educação em Portugal, a última seria aquela. Porque considero que os professores não precisam de ser avaliados? Ter essa posição num sistema mais obcecado em avaliar os alunos do que em ensiná-los e mais concentrado em fazer rankings de escolas do que em dar-lhes condições para funcionar seria absurdo. Apenas porque, sabendo-se que os maus e os bons continuariam com a dar aulas depois de serem avaliados, essa avaliação tinha um efeito nulo. Era apenas uma forma de cortar nos salários. E eu não sou dos que acreditam que um mau professor se torna melhor porque pode receber mais. A maioria dos maus professores não são melhores porque pura e simplesmente não têm capacidades pedagógicas, preparação ou não gostam de dar aulas.

Conheço muitos professores que não o queriam ser e imensas pessoas que me parecem ter um talento natural para ensinar e não querem ser professor. Não é por o salário ser mau. Não é excelente mas, comparado com o que se pratica no privado e com os salários da maioria dos servidores públicos, não parece ser aí que reside o problema. A absurda instabilidade em que vivem, resultado de um processo de colocação kafkiano, seguramente conta. O ambiente que se vive em muitas escolas, onde impera um enorme desalento, também. Mas, acima de tudo, porque a profissão de professor está socialmente desqualificada.

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    Jari Lavonen, diretor do departamento de formação de professores da Universidade de Helsínquia, esteve em Lisboa na semana passada. Encontrou-se com deputados da comissão parlamentar de Educação, visitou a Escola Superior de Educação João de Deus e apresentou algumas das razões do sucesso finlandês. Mas acredita que também o seu país tem a aprender com o sucesso recente de Portugal nos testes internacionais e na redução do abandono escolar