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Órban está otimista: Trump é só o começo

“O que antes era denunciado como uma loucura está a começar a dominar a agenda”, disse o porta-voz do governo húngaro, Zoltan Kovács, sobre o que considera ser o início de uma aproximação entre as políticas do seu país e da Europa para a imigração, acrescentando: “acreditamos que a mudança de perspetiva nos EUA ajudou a criar mais respeito pela posição húngara”. Sim, a vitória de Trump deu ânimo ao conjunto da extrema-direita. E, como tem sido hábito na Europa, os políticos não lideram com coragem, são liderados pelo medo. Respondem às razões mais superficiais dos eleitores de extrema-direita, cedendo naquilo onde não se devia ceder e deixando como está o que devia mudar. Se continuar a ser este o caminho, rapidamente descobrirão que nunca se vence o inimigo imitando-o, mas compreendendo as razões pelas quais ele nos está a derrotar. E Trump será apenas a primeira peça de um dominó que continuará a cair

Todos os refugiados ou imigrantes que entrem na Hungria, mesmo os que já tenham pedido asilo, ficarão detidos sem poderem ir à rua. Uma detenção que pode demorar meses. A nova medida, anunciada por Viktor Orbán com o seu orgulho suástico, não tem, na realidade, nada de novo em relação ao que já é praticado. Limita-se a oficializar o que a Human Rigths Watch denuncia desde 2015. O que é novo é ver o governo húngaro mostrar que já não se sente sozinho. “O que antes era denunciado como uma loucura está a começar a dominar a agenda”, disse o porta-voz do governo, Zoltan Kovács.

A Hungria sente que, desde a cimeira de Malta, o ambiente político europeu em relação aos refugiados e à imigração está a virar a seu favor. Isto apesar da impraticabilidade das propostas para travar os refugiados em fuga do caos líbio e de ainda se estar longe das medidas drásticas que Orbán gostaria de ver aplicadas. A Europa apenas tenta cooperar com a Líbia, um Estado que, na prática, deixou de existir. Mas é verdade que os discursos sobre os deveres europeus perante quem foge da guerra e a defesa da partilha por todos de um fardo que, nos países do norte da Europa, foi quase exclusivamente alemão, estão a desvanecer-se. O debate já não é como receber os refugiados, é como impedir que cá cheguem. E isso não passa, na cabeça dos líderes europeus, por resolver os conflitos de que fogem.

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  • Refugiados na Hungria vão ser presos em campos de contentores nas fronteiras

    Medida aplica-se a novas chegadas mas também a todos os que já estão no país à espera de obter asilo. Governo de Viktor Orbán, professo admirador de Donald Trump, defende necessidade de “proteger” o país de ameaças terroristas e reconhece que os planos vão pô-lo em rota de colisão com Bruxelas e alguns Estados-membros

  • Por mais que me enoje a política de Orbán, resisto a um tique se tornou europeu: a forma de garantir a unidade do que já está dividido é a ameaça, a sanção, a multa, o castigo. A Hungria, como todos os Estados, está obrigada a cumprir o Tratado de Lisboa, que é, ao contrário do tratado orçamental (que está fora do quadro jurídico da UE), um documento fundamental da União que hoje temos. E como não o cumpre há anos, violando de forma repetida as regras democráticas e desrespeitando os direitos humanos, já devia ter sido expulsa desta União. A Hungria, por mais inaceitável que me pareça a sua postura, está obrigada a participar numa política comum para os refugiados mas não está obrigada pelos tratados a receber um número determinado de refugiados. Acredito que a União Europeia deve ser uma associação voluntária de Estados soberanos e democráticos. Oponho-me a qualquer comportamento que viole este princípio: quando a União desrespeita a soberania dos Estados e quando os Estados deixam de ser democráticos. O problema não é Viktor Orbán desafiar o poder da União Europeia. O problema é a União aceitar, há anos, ter entre os seus membros um Estado que viola de forma continuada os seus princípios fundadores. E eles não são, ao contrário do que hoje parece, o défice orçamental de 3%, a privatização dos serviços públicos e redução do salário mínimo nacional. São o respeito pela democracia e pelos direitos humanos