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A crise do jornalismo é a crise da democracia

É difícil dizer isto a um jornalista, mas a rapidez e o direto deixou de ser a sua vantagem. Já todos podem oferecer isso. Os jornalistas terão de aceitar que muitas vezes serão os últimos a dar uma informação. Ganham se tiverem outra vantagem para oferecer: a credibilidade. Não é possível garantir isto com redações em que as pessoas recebem 700 euros para fazerem quatro ou cinco peças por dia. A proletarização dos jornalistas associada à crise do modelo de negócio em que se baseavam os principais órgãos de comunicação social deixou jornais, televisões e rádios num limbo perigoso. Na tempestade de boatos, meias-verdades e mentiras que as redes socais facilmente alimentam, os órgãos de comunicação social, em vez de funcionarem como terra firme, são uma jangada que vai com a corrente. E contribuem com esta mimetização suicida para uma crise global de confiança que está a minar os alicerces das democracias. A crise do jornalismo está incluída numa crise mais geral: a crise de todos os agentes mediadores na era da Internet e da globalização. Ela afeta a comunicação social como afeta os partidos políticos, os sindicatos, o Estado

Os jornalistas reuniram-se em congresso, este fim de semana. Infelizmente, por razões pessoais, e com grande pena minha, não pude assistir e participar no debate. Faço-o aqui, dirigindo-me, como se dirigiram os jornalistas que se encontraram no cinema São Jorge, aos leitores. O debate faz-se, hoje, em torno de três crises: a crise laboral que afetou os jornalistas, a crise do modelo de negócio em que a comunicação social se baseava e a crise da regulação, que no caso português está longe de ser nova. As três sombras que pairam sobre o jornalismo estão todas ligadas.

Há algumas décadas que assistimos ao processo de proletarização dos jornalistas. Não há autonomia possível quando 26% dos jornalistas trabalham a recibos verdes e 69% recebem entre 500 e 1500 euros, sendo que metade recebe menos de mil euros e 22% menos de 700. A precariedade e os salários baixos correspondem àquilo que se tornou a função dos jornalistas: produzir em série, sem uma verdadeira autonomia funcional. A isto juntou-se a redução drástica das redações, obrigando cada profissional a fazer várias peças por dia, muitas vezes para vários suportes, sem que sobre qualquer tempo para estudo e investigação. Não há jornalista mais fácil de manipular do que o jornalista sem tempo. Jornalistas mal pagos e a encher chouriços informativos são o sonho de todos os que desejam uma comunicação social amestrada.

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  • O 4º Congresso dos Jornalistas terminou com um conjunto de conclusões positivas, no essencial, e com uma imagem de abertura bastante maior do que a dos congressos anteriores. À presidente, Maria Flor Pedroso, e a todos os que o organizaram, incluindo o Sindicato, o Clube e a Casa da Imprensa são devidas felicitações pelo sucesso da iniciativa

  • “O senhor não me mace!”. Ou como a crise do jornalismo também é culpa dos jornalistas

    Os crescentes atropelos à deontologia em nome dos cliques e das audiências, as discutíveis opções editoriais na hierarquização da “informação”, a falta de cultura nas redações e a cedência à perspetiva empresarial na gestão editorial têm sido alguns dos pontos mais focados pelos jornalistas nas auto-críticas ao exercício da profissão. O 4.º Congresso dos Jornalistas, que decorre em Lisboa desde 5ª feira, termina este domingo

  • "Hoje, há medo nas redacções. Ou alguém tem dúvidas?"

    A precariedade no jornalismo, a qualidade da informação na era do imediatismo e o contra-senso de haver uma audiência cada vez maior e que cada vez menos valoriza o trabalho dos jornalistas foram alguns dos temas em debate no segundo dia do 4.º Congresso dos Jornalistas, que decorre até domingo em Lisboa