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Europa: a história não deu nem tirou a razão a Soares

Nos anos 90, Soares mostrava que a escolha europeia pela qual se bateu estava totalmente certa, o que obrigou os comunistas a enfiar a viola no saco. Em 2017 é impossível dizer as coisas assim. Isto apenas quer dizer que a história nunca está feita, e por isso nunca sabemos a quem ela vai realmente dar razão. Vai dando e tirando razão a todos. Com os dados que tinha, Soares fez a escolha certa: a integração europeia consolidou a democracia, abriu o país ao mundo e garantiu um extraordinário salto económico e social. A União que se forjou para o século XXI não oferece ou oferecerá nada disso. Reconhecer que o projeto europeu, que garantiu décadas de paz, protegeu o Estado Social e permitiu uma convergência económica e social entre Nações livres, está morto e que a União é hoje o oposto disto tudo representa, para tradição socialista, um momento tão doloroso como aquele que os comunistas viveram nos anos 90. Fazê-lo, não tira razão à escolha europeia que Soares defendeu nos anos 70 e 80. Apenas assume o que Soares assumiu muitas vezes: que as opções mudam quando muda a realidade

Gostamos de discutir se a história deu ou não razão a alguém. Porque todos queremos estar do “lado certo da história”. A ideia é duplamente absurda. Primeiro, porque assume que o político trabalha para a história. O político trabalha para os seus contemporâneos e para um horizonte previsível. Ficar na história não é um objetivo, é uma consequência. Depois, porque apesar do distanciamento permitir um olhar mais desapaixonado, o passado depende sempre do presente. E o presente vai mudando e com ele o olhar sobre os mesmos acontecimentos. A história nunca chega ao fim. Dá razão e volta a tirá-la. O importante não é estar do lado certo da história – para o conseguirmos teríamos de saber do fim dos tempos –, mas fazer o melhor possível com os dados que se tem.

Com a crise do euro não faltou quem dissesse que a história veio dar razão aos comunistas. No momento da morte de Mário Soares, associa-se a defesa da democracia e da liberdade ao seu europeísmo, dizendo que ele esteve do lado certo da história. Não pretendo resolver esta disputa. Quero apenas dar-lhe alguma perspetiva.

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