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Soares e a descolonização possível

O drama humano de muitos dos chamados “retornados” não nos pode levar a ignorar as condições em que a descolonização foi feita. Não podemos torcer a história para mostrarmos compreensão pelos dramas humanos dos seus atores involuntários. Não era possível manter as tropas que se revoltaram contra guerra a garantir um processo longo de transição contra a vontade dos movimentos de libertação e dos próprios militares portugueses. Muito menos isso poderia ser garantido por um poder frágil e ainda sem legitimidade democrática. A revolução teria soçobrado à continuação da guerra e a democracia teria morrido ainda antes de nascer. Soares interpretou, em conjunto com a quase totalidade dos agentes políticos do pós-25 de abril, a vontade da maioria dos portugueses, pondo fim a uma guerra em defesa de um império anacrónico. Se a descolonização tivesse sido feita 13 anos antes, em paz e com um regime sólido, teria sido diferente. Só que não é por acaso que isso não aconteceu: a existência das colónias era condição de sobrevivência da ditadura assim como o fim da guerra e do colonialismo foi condição para a emergência da democracia. Com as tropas desmobilizadas em África, um vazio de poder na metrópole, a tentativa de criar um novo poder legítimo no país e a intervenção direta dos beligerantes da guerra fria na tomada de poder nas ex-colónias, Portugal fez, fora de tempo e sozinho, o melhor que podia nas condições que o Estado Novo lhe deixou

Independentemente das divergências que tenham existido com Mário Soares, é impressionante o ativismo militante dos que mais o odeiam, à esquerda e à direita. Sobre esse ressentimento como demonstração da relevância do papel histórico de Soares já escrevi no último fim-de-semana. Quero concentrar-me nos dois acontecimentos que me parece estarem na base deste ódio: a descolonização e o PREC. Hoje, a descolonização.

Muitos dos chamados “retornados” acusam Soares de ser responsável por uma descolonização que os deixou em perigo e na penúria, e que atirou Angola (e também Moçambique) para uma guerra civil. Não me dedico ao jogo fútil de devolver a culpa a quem o destino colocou em África em 1974 e 1975. Considero, por convicção e formação, o colonialismo o maior crime histórico da Europa. Sobretudo o colonialismo tardio, que já não podia encontrar nos valores da época qualquer sustentação moral. Mas não transporto para os atores individuais, os colonos, a responsabilidade de uma escolha que fizemos enquanto Nação. E consigo compreender que nascendo as convicções políticas da experiência de vida de cada um, se sintam credores de alguma coisa. Não o são. O que não quer dizer que, como atores involuntários da história, tenham condições emocionais e humanas para o compreender.

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