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O tempo do patrão

É normal em qualquer entrevista de emprego perguntar-se ao candidato se tem disponibilidade absoluta. A resposta normal deveria ser um rotundo e indignado “não”. Pois se ninguém, nem a nossa mulher, marido ou filhos, deve contar com disponibilidade sem limites, como se atreve um empregador a exigir tal coisa? O facto dos franceses estarem, tantas décadas depois da instituição das férias pagas e da semana inglesa, dos horários de trabalho, das licenças de maternidade e de doença, a discutir se os trabalhadores têm direito a não responder a telefonemas ou e-mails do patrão nas férias e ao fim de semana é o melhor retrato do retrocesso civilizacional que vivemos nos últimos anos. Um retrocesso que nos é sempre apresentado com tons de modernidade. Como se houvesse alguma dignidade na escravatura, como se não ter vida para dar lucro a outros fosse motivo de orgulho. Voltou tudo à estaca zero e temos de pedir de novo, por favor, umas horas em que não somos propriedade do patrão

Em França, o governo tenta que se chegue a acordo para permitir a flexibilidade de trabalho mas com alguns limites. Dando aos trabalhadores o direito a não estarem online durante os dois dias de descanso semanal e as férias. Assim, os chefes não poderiam enviar mails aos trabalhadores à noite e aos fins de semana ou durante as férias. Segundo um estudo recente um terço dos trabalhadores franceses usa aparelhos electrónicos para trabalhar fora da hora de expediente.

A nova lei laboral, que está longe de ser favorável para os trabalhadores, obriga, no entanto, as organizações com mais de 50 funcionários a iniciarem negociações para definir os direitos dos trabalhadores de ignorarem os seus telefones, tablets e computadores. Só que não prevê qualquer sanção para as empresas que não o façam.

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