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Balanço dos líderes (1): Catarina, a maioridade do Bloco

Apesar de alguns deslizes um pouco absurdos – como dizer que o governo que sustenta não é de esquerda –, o BE tentou encontrar o seu espaço na “geringonça”. É, aliás, a crítica mais comum que lhe tem sido feita: querer dar nas vistas. Uma crítica bastante tonta. A ideia de que um partido pode contribuir para uma solução em que não manda sem sublinhar as suas vitórias corresponde à defesa do suicídio político dos parceiros menores de um entendimento. No do dia em que o BE deixar de o fazer António Costa deve preocupar-se. Foi o lado performativo de Catarina Martins que a levou a preparar-se para a campanha de 2015 de forma exemplar e a transformar um cenário catastrófico na maior vitória de sempre do Bloco de Esquerda. Mas, ao contrário do que muitos julgavam (eu incluído), há mais do que isso. Ela conseguiu dar uma nova relevância ao partido nascido há 18 anos. O que ainda não se sabe é se, num partido onde tem muito menos poder do que parece, Catarina Martins tem a autonomia para liderar uma estratégia de longo prazo. Ou se o Bloco tem essa estratégia. Nos momentos difíceis, e eles virão, é isso que impede que se comentam alguns erros ditados por falhas de percepção ou por nervosismo

De hoje até ao fim do ano farei a análise da prestação dos cinco líderes partidários, neste ano de 2016, e alguns dos desafios que têm pela frente. Por esta ordem: Catarina Martins, Jerónimo de Sousa, Assunção Cristas, Pedro Passos Coelho e António Costa.

Quem, no final de 2014, tivesse visto o resultado da IX Convenção do Bloco de Esquerda nunca poderia prever o que estamos a viver hoje. A linha de Catarina Martins empatava com a ala mais ortodoxa, representada por Pedro Filipe Soares. Bastava um voto de diferença e o apagado líder parlamentar teria garantido um resultado trágico para o BE. Mas mesmo Catarina Martins era então uma coordenadora pouco mobilizadora. O partido estava dividido depois de várias derrotas e ziguezagues, com risco de perder ainda mais votos para novos protagonistas e para António Costa, muito mais apreciado pelo eleitorado de esquerda do que António José Seguro. Contra ele, o Bloco tinha acabado de aprovar uma estratégia de radicalização e indisponibilidade para qualquer entendimento: “Os sectores que se aproximam do Partido Socialista e com ele pretendem governar abdicam de responder ao principal desafio colocado ao país: desobedecer às imposições da UE como condição para cumprir qualquer objetivo da esquerda em Portugal. O Bloco não desiste.” Todos os astros pareciam alinhados para tudo correr mal. Incluindo os astros que o BE controlava.

Depois começou a pressão. A pressão da popularidade de Costa no eleitorado bloquista, a pressão de dissidências e novos partidos, a pressão dos próprios eleitores de Costa, a pressão de sondagens que davam Passos com uma forte possibilidade de vencer. E contra todas as probabilidades, uma coordenadora que não era especialmente popular, que não parecia ter especial talento mediático, revelou-se. Todos os debates que teve na campanha correram-lhe bem, na rua teve irrepreensível e até conseguiu ofuscar a jovem estrela Mariana Mortágua. A imprensa começou a ser favorável, as sondagens começaram a prometer o que nunca se esperou – o BE elegeu deputados que nunca equacionou para o lugar – e Catarina deu o golpe de misericórdia: propôs a Costa, num debate final, uma solução de governo. Ao contrário do que sucedia com o PCP, que já preparava essa solução, tratou-se mais de um golpe de circunstâncias, para aliviar a pressão do voto útil, do que uma proposta pensada. Mas estava dito.

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